A venda do quarteirão no Itaim

Não sou urbanista, não entendo muito como funcionam as dinâmicas das cidades. Mas moro em São Paulo e conheço bem esse pedaço.

O Kassab conseguiu aprovar a venda de um terreno no Itaim. É uma área onde funciona uma creche, uma unidade básica de saúde, uma escola pública de ensino básico, uma unidade da Apae e, se não me engano, uma biblioteca. Às vezes passo em frente ao local, que fica numa área bem valorizada. Não gosto nem um pouco daquela região afetada. Posso estar enganado, mas acho que a Marta já tinha tentado vender esse terreno.

A lógica é simples: não há demanda pelos serviços públicos ofertados lá. Os moradores do lugar são ricos, e eles não precisam ou não querem usar o que o espaço oferece.

Existem bairros de São Paulo com falta de creches e outros aparelhos públicos como esse. Qualquer organização (pública ou privada) minimamente racional faria o que o Kassab quer fazer.

Mas mesmo assim os vizinhos não gostaram da venda. Fui numa palestra sobre mobilidade urbana na última terça-feira, e um dos palestrantes (que, aliás, era um tanto inconveniente, disse ao David Byrne que o cabelo dele era diferente, o que deixou o músico grisalho constrangido) estava inconformado com a possibilidade de venda e com a suposta falta de mobilização da população para “defender o espaço público” (o que é falso, porque houve, sim, protesto, inclusive na câmara municipal).

A verdade é que os moradores do Itaim não querem mais prédios numa área que eles consideram sobrecarregada. É uma posição cínica, porque a área está sobrecarregada justamente por causa deles. Imagine dez crianças numa piscina que impedem que uma décima-primeira entre, dizendo que já tem muita gente na piscina. Ao mesmo tempo, nenhuma das dez aceita sair para dar lugar. Os moradores do Itaim são essas crianças.

É bom dizer que é quanto mais alta a densidade demográfica de uma região, melhor.

E também é bom dizer que muito perto do local tem uma praça grande – o Parque do Povo – e o Ibirapuera não está tão longe. Os moradores já são suficientemente privilegiados.

Sinceramente, torço para que o Kassab consiga vender a área e que lá as imobiliárias construam prédios com muitos apartamentos e que milhares de pessoas tenham suas casas próprias no local.

4 Comentários

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4 Respostas para “A venda do quarteirão no Itaim

  1. iara

    Sua lógica é torta pois a demanda dos serviços públicos ofertados aqui é alta, pois ela atende a todos os trabalhadores que se deslocam para esta região (e não são poucos), em época de vacinação o posto do SUS atende a toda a região dos moradores e trabalhadores do local fazendo grandes filas, afora o fato de que as crianças que usam a rede de ensino publico e creches daqui são filhas de domésticas e trabalhadoras da região, álem do que a APAE que tem uma de suas bases neste quarteirão, acolhe pessoas com sindrome de down que é uma “estado físico” que não escolhe camada social, a idéia deste lugar quando se originou: “Foi uma filosofia pensada na década de 1940, que defendia colocar no mesmo local escolas, bibliotecas, teatro, posto de saúde, esporte, tudo em meio a uma vegetação exuberante.” e assim é este quarteirão, só que eles não imaginavam que esta região fosse ser uma das mais valorizadas de SP, ao lado da Av. Faria Lima perto da Av Juscelino Kubitschek onde a cada dia se ergue mais um edíficio financeiro, comercial ou residencial disto a região ja esta cheia o que fez crescer os olhos gananciosos dos políticos que é claro vão ter os seus 10% dos investimentos.

    O que vc. demonstra na sua lógica canhestra é sómente sua mesquinhez de visão onde “se é para os ricos vamos acabar com tudo” são visões como esta que fazem com que este país só ande para trás, porque se nivelar sempre por baixo ? Porque não querer que haja este mesmo projeto em todas as regiões de São Paulo?

    Sim, nós moradores desta região queremos o melhor para todos e gostaríamos que vc. revesse sua opinião , visitando e conhecendo este lugar !!!!

  2. Iara, obrigado pelo convite. Juro que vou pensar com carinho, e pirigas eu pegar a minha bicicleta para ver conhecer melhor o quarteirão.

    Naturalmente eu discordo do que você escreveu. Pra começar, que “esse país só anda para trás”. Acho que esse país andou para frente, e andou muito.

    Seguindo; não acho que o texto possibilite a interpretação de que considero que “se é para os ricos vamos acabar com tudo”, ideia com a qual não compactuo.

    Concordo que “não imaginavam que esta região fosse ser uma das mais valorizadas de SP”. Acontece que a cidade tem suas dinâmicas, seus movimentos. O poder público precisa se adequar a essa nova realidade.

    Você e as reportagens que estão sendo publicadas afirmam que há, sim, demanda pelos serviços públicos lá ofertados. Mas ninguém detalha esses números, o que é suspeito.

    Se fosse só o Kassab que quisesse vender, acharia que nesse mato tem cachorro. Mas a verdade é que a Marta tentou a mesma coisa.

    Mais uma vez, acho que a principal razão pela qual os moradores não querem a venda é que com ela o bairro ficará mais populoso.

    Acontece que uma cidade faz mais sentido sendo densa. O preço da urbanização por pessoa (para levar luz, para levar água, para levar transporte público e até para fazer áreas verdes) fica mais barato dessa forma.

    Essa região, especificamente, é perto de parques, do trem e de outros equipamentos públicos pelos quais há demanda. Quanto mais gente morar aí, melhor.

  3. Patricia Falk

    Venha mesmo, conhecer o quarteirão! Mas venha depois que as aulas recomeçarem, ok?
    Vou meter minha colherzinha neste assunto:
    Vc diz:
    – “não há demanda pelos serviços ofertados lá” – Vc já viu as filas no posto? Já viu qtas vagas ‘disponíveis’ há na creche, nas escolas? Acha que os serviços oferecidos pela APAE não são desejados??
    – “existem bairros de são Paulo com falta de creches e outros aparelhos públicos como esse” – sim!!! É verdade! É por isso mesmo, que devemos pleitear novas instalações, MANTENDO as já existentes. O objetivo, portanto, dever ser o de acrescentar, somar.
    – “Qto mais alta a densidade de uma região, melhor” – alta densidade demográfica por si só pode trazer sérios problemas. Devemos focar, isto sim, na qualidade de vida das pessoas, no fornecimento de serviços adequados, etc. O planejamento urbano é essencial, para que o crescimento – inclusive demográfico – se dê de maneira a atender bem uma determinada população.
    Vc alega que o fornecimento de serviços numa região de maior agrupamento populacional é facilitado. Verdade… se houver planejamento. Ex.: novos prédios deveriam ser aprovados com um número mínimo de vagas por unidade (de escritório, de apartamento), mais (+) vagas para visitantes, carga e descarga, desembarque, etc. Novos comércios (quem já está, fica – paciência…), inclusive restaurantes, deveriam ter vagas suficientes para seus clientes. Etc. E olha que as idéias não são minhas… Eu as ouvi há trinta anos, numa entrevista na TV, do Sr. Scaringella, que foi fundador e presidente da CET !!! E até hoje nossos digníssimos vereadores nada fizeram a respeito, pq seriam medidas no mínimo ‘antipáticas’ …
    Vc diz que esta região fica perto de parques, trens e outros equipamentos públicos, pelos quais há demanda e que qto mais gente, melhor. Já tentou pegar um trem por aqui no horário de rush? Não tente… Por outro lado, mtas das pessoas que utilizam estes transportes públicos, também utilizam a creche, o posto, a biblioteca, APAE e escolas. São pessoas que trabalham na região, ou apenas passam por ela, a caminho do trabalho, utilizando os serviços aqui prestados.
    Moro neste bairro há 40 anos e acompanhei boa parte de seu desenvolvimento.
    De manhã e á tardinha, vemos um contingente de pessoas levando e buscando suas crianças na creche, para poderem trabalhar na região ou em regiões próximas; meus filhos foram vacinados neste posto, assim como muitos bebês do bairro. Os filhos de minha empregada, idem.
    Minha mãe e vários idosos de minha rua utilizam o posto de saúde. Os empregados domésticos e os do edifício também!
    Basta ver as filas diante do posto, de manhã, para agendamento de horários. As escolas, como eu disse, estão lotadas!
    A APAE atende pessoas deste e de outros bairros. Deslocar esta unidade seria um transtorno para aqueles que lá são atendidos. Alunos que aprendem a ter uma certa autonomia, a pegar ônibus sozinhos – se possível – , a realizar tarefas e trabalhos de acordo com suas possibilidades. A maior parte deles não mora no bairro, mas em bairros próximos.
    A criação do Parque do Povo foi uma coisa ótima. Mais uma vez, defendamos a criação de muitos outros parques, como este ou como o Ibirapuera, para o benefício da imensa cidade de SP
    Você deveria torcer, ou pleitear, planejamento urbano, mais praças, postos de saúde, serviços públicos de qualidade, hospitais, bibliotecas, teatros populares, etc, distribuídos por TODA a cidade, de acordo com a densidade demográfica de cada bairro ou região.
    Sua opinião sobre os moradores do Itaim me parece preconceituosa e discriminatória. É um bairro de novos e luxuosos edifícios, mas também de comércio, antigas residências dos tempos em que era um bairro operário, vilas, ‘predinhos’ antigos: tem de tudo.
    Aliás, sua opinião me parece um tanto quanto tendenciosa… Parece que o seu interesse não é o benefício do povo, mas é defender a Kauffmann e o Sr. Kassab; os interesses da especulação imobiliária e de uma movimentação no mínimo nebulosa para que a venda se concretize (com votações apressadas, em dia / horário estranhos).
    Não quero parecer agressiva… tenho carinho por esta cidade, por este bairro e fico triste, qdo vejo que uma parte do pouco que funciona corre o risco de ser eliminada…
    Por favor, ajude-nos a manter o quarteirão…

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