Saga Brasileira vale por detalhes

Tenho uma boa memória do começo do Real. Fiz a minha primeira transação com a (então) nova moeda num boteco do lado da igreja da Santa Maria Madalena, na Vila Madalena. Na hora que fui pagar, alguns bêbados se aproximaram do caixa para ver a nova cédula.

Era a época da Copa, e a imagem do Romário, das ruas vazias durante os jogos e dos muros pintados se misturam um pouco, na minha cabeça, com a do lançamento das notas.

Não me lembro dos primeiros dias dos outros planos econômicos. Eles eram muito mais traumáticos – os ministros anunciavam na sexta-feira, quando os bancos já estavam fechados. No fim de semana, mudava o nome da moeda e a lógica da economia.

Quem é um pouco mais velho conta que se lembra de como e quando recebeu a notícia do Plano Cruzado, do Plano Verão, do Plano Bresser, etc… Mais ou menos como todo mundo tem uma história para falar do 11 de setembro.

Desculpa a obviedade: inflação descontrolada e, depois, a estabilização foram marcantes na nossa história. Já ouvi uma entrevista no podcast do Freakonomics em que diziam que um trauma econômico (no caso, falavam da depressão dos anos 30) molda uma geração. E acho que os anos 80 e começo dos 90 foram assim aqui no Brasil.

A Miriam Leitão acertou quando botou no título do livro dela “Saga Brasileira”. Ela percebeu que, para quem é economicamente ativo hoje, nada foi tão traumático e formador como a inflação daqueles tempos. Nenhum outro evento econômico, político, cultural ou social foi tão importante como o descontrole dos preços.

O melhor momento do livro é quando a Miriam Leitão descreve a insanidade que foi o Plano Collor. Tanto a formatação dele pela Zélia e equipe (incluindo os detalhes sórdidos de como ela escolheu o valor que ia ficar na poupança de cada um) e das consequências caóticas do roubo do dinheiro. Claro, também dá para entender bem os avanços e retrocessos das outras tentativas de normalizar a economia.

Ela repete, em diversos momentos, que é preciso lembrar sempre de como a inflação deteriorou o país. O livro é, segundo ela, um esforço nesse sentido. Para mim, foi muito legal ler no “Saga Brasileira” os detalhes e percalços da economia anterior ao Real. Os embates travados por diferentes teóricos econômicos, como foi se chegando ao conceito de inflação inercial, como os planos foram fracassando até que um deles emplacou.

Só tem uma coisa que me incomodou. Ela conta histórias de vidas afetadas – até aí, bem bacana. Mas há uma repetição excessiva da ideia de que as pessoas simples têm uma sabedoria profunda. Foi inspirada no Guimarães Rosa, com os narradores dele que, no fundo, parecem dizer que “o doutor não sabe que não sabe”. Isso é evidenciado pela repetição da palavra “travessia” no “Saga Brasileira”.

PS: Na faculdade estudei o Plano Real e alguns dos que antecederam ele. E o professor (acho que era Francisco o nome) contou que a equipe econômica do Collor não sabia quantos cruzeiros deixar nas cadernetas de poupança. E que os economistas escreveram os valores em pequenos papéis, dobraram e colocaram numa urna. O sorteado foi 50.

No “Saga Brasileira” a história é diferente, mas igualmente inacreditável. A Zélia foi recebida no seu prédio com uma festa surpresa. No mesmo momento, tinha que decidir qual seria o valor que ia deixar nas poupanças dos brasileiros. Intercalando um momento para pensar nisso e um momento para socializar na festa, ela escreveu três números num papel – 20, 50 e 70. E num ímpeto, se decidiu pelos 50 cruzeiros, e em seguida foi comer um canapé.

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Arquivado em Miriam Leitão, Saga Brasileira

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