Os Braz da Brasilândia

A ideia de Dois Tempos é muito boa. Há dez anos os diretores gravaram um documentário para mostrar quem era a classe média brasileira. Escolheram uma família da Brasilândia. O sobrenome deles é Braz. Sem querer soar esnobe, assim como a matriarca do filme, tenho dúvidas em relação a essa classificação. Se eles são classe média, certamente estão entre os mais pobres dessa “classe”. No ano passado os mesmos cineastas voltaram a gravar com a mesma família. Em Dois Tempos, 2000 e 2010 são intercalados.

A família Braz é bem humorada. São pessoas empreendedoras e batalhadoras. Mas o que mais chamou minha atenção a respeito dos Braz foi a obsessão pelo consumo. Os dois filhos mais velhos, principalmente, só pensam em consumir, consumir, consumir. O que eles compram, claro, lhes dá prazer, mas o que eles gostam mesmo é de poder comprar. Isso é explicitado numa frase do primogênito. Ele fala de uma viagem de cruzeiro que ele fez (ele salientou que custa 2.700 dólares, pagos pela empresa). Mostra uma foto dele mesmo no navio e diz “nesse dia eu estava contente, nesse dia eu estava podendo“. Esse mesmo filho mais velho se formou em administração, mas fala bobagens tão constrangedoras que fizeram a plateia do cinema rir. Uma delas sobre o irmão mais novo (“meu irmão mais novo é um cara fechado, mas ele é cabeça quente. Ele é quase um marxista!”).

Para não parecer que ele é muito ingênuo, é bom salientar que ele também tem alguns momentos brilhantes. Principalmente quando sabe do que está falando. De desigualdade social, por exemplo, ele entende. Num almoço de família, os Braz discutem a pena de morte. E esse mesmo filho mais velho faz uma sensacional definição do que seria a pena de morte no Brasil. O holocausto da periferia. Perfeito.

Irmã mais velha e mais simpática da família Braz da Brasilândia

Os quatro filhos fizeram (e ainda fazem) o que puderam para entrar no mercado de consumo. Sempre que eles mencionam estudos ou empreendedorismo é para poder ganhar dinheiro para comprar. De uma maneira afobada, eles estão conseguindo, e isso é legal. Só acho um pouco triste ver que para que eles se considerem cidadãos eles precisem se considerar consumidores. Mas mais triste seria se se sentissem excluídos.

Os Braz da Brasilândia, claro, representam as famílias que mudaram de vida nos anos Lula. Eles são muito mais felizes e têm muito mais condições de vida em 2010 do que em 2000. E isso é o que importa.

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