Cópia Fiel é Kiarostami original

Eu também, eu também acho cinema iraniano meio chato. As tomadas longas, sem ação e sem diálogo, e os finais abruptos e inconclusivos me incomodam. E como a maioria das pessoas que não gostam de cinema iraniano, também não sou grande conhecedor dos filmes feitos lá. Devo ter visto, estourando, uns dez – incluindo dois da nova geração (“Ninguém Sabe dos Gatos Persas” e “Procurando Elly”), que teoricamente não contam como aquele cinema iraniano modorrento das piadas batidas sobre intelectualismo.

Mas acho o Kiarostami uma figura curiosa. Há anos ele é o maior cineasta do país. Se recusa a ser usado pela propaganda do regime mas ao mesmo tempo não quer ser um ícone da dissidência. No Irã ele não é o rebelde que os “ocidentais” o consideram. Ele gosta de salientar que não é um cineasta cinéfilo – ele estudou pintura e artes gráficas no Irã.

Deveriam proibir o Mastroianni de ser tão cool. É injusto com o resto da humanidade

O Eduardo Escorel escreveu que “Cópia Fiel” retoma o tema de “A Noite”, do Antonioni. Já li outras críticas que dizem a mesma coisa. Sem dúvida que existe uma semelhança da narrativa. O fato de “Cópia Fiel” se passar na Itália reforça os pontos em comum. Mas, sinceramente, acho que se há essa “continuação” ela certamente não é proposital. Primeiro porque o iraniano não é um cinéfilo. “Retomar” seria um projeto de um apaixonado por cinema. E segundo porque o tema da legitimidade é a cara do Kiarostami.

Clooose Up, Cloooose UP, fale de perto com Clooose Up!

“Close Up”, um filme de 1990, aborda isso. Não sei se dá para encontrar “Close Up” nos torrents. Vi em VHS há uns cinco anos. É meu filme preferido dele. É a história de um cara em Teerã que se passa por um cineasta famoso, o Makhmalbaf. Fingindo ser esse diretor, o cara conquista a simpatia de uma família rica, e diz que irá fazer um filme com eles. Depois de um tempo essa família suspeita que algo não está certo. Eles o processam. O filme foi feito com as pessoas que participaram da história. No fim o Makhmalbaf “falsificado” ainda encontra o verdadeiro.

“O Gosto da Cereja”, o filme mais famoso do Kiarostami, também tem um fim sobre o que é verdadeiro e o que não é. (Vou contar o fim, se você não viu, não leia). A história é sobre o cara que quer se matar. Ele roda pela periferia de Teerã. E no fim ele faz um acordo com um cara que “meio que ajuda” o protagonista. O que acontece depois? Acontece que o espectador vê toda a equipe de filmagem. Como se dissesse que essa história “não existe”. Que cinema é “faça acreditar” o tempo todo.

O “casal” de “Cópia Fiel” pode ser “verdadeiro” ou não. O espectador é obrigado a especular isso em vários momentos da narrativa. O que o diretor quer é que a gente pense se ser “legítimo” faz diferença – as várias metáforas, os diálogos e discursos no filme certamente não são gratuitos.

“Cópia Fiel” pode ser um filme italiano. Mas não tenho dúvida, é Kiarostami puro, e não um arremedo de Antonioni.

Deixe um comentário

Arquivado em Antonioni, Eduardo Escorel, Kiarostami

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s