Can’t you show me nothing but surrender?

Saiu de uma cidade pequena, onde trabalhava numa fábrica, para tentar a sorte na metrópole. Morou em lugares paupérrimos, comia pão do dia anterior, teve empregos horríveis (um deles durou três horas) mas nunca deixou de perseguir seu objetivo. Se importava apenas o suficiente com política e outras distrações que não fossem diretamente ligadas ao seu grande objetivo. Mas nunca esqueceu do seu lado metafísico, e dedicava um quinhão do seu tempo aos seus deuses. Se aplicava com um afinco extraordinário. Quando a fome apertava, repetia o mantra “sou livre, sou livre, sou livre”. Depois de muito batalhar, teve sucesso na vida.

Parece a história de um self-made man burguês e protestante. É a história da Patti Smith, narrada pela própria em “Just Kids”.
(Achei de graça num pacote no Torrent.)

A Patti Smith escreveu e cantou algumas das minhas canções preferidas. Eu deveria parar de ler “Just Kids” porque a cada capítulo gosto menos dela. Do Mapplethorpe nunca gostei.

Me lembro bem de uma exposição do Robert Mapplethorpe no MAM, em São Paulo, em 97. Saíram várias matérias nos cadernos culturais. O que mais chamava a atenção, claro, era a polêmica em torno das obras – algumas tinham sido censuradas em outros países. Até falamos dele no colégio – era muito raro comentar uma exposição no meu colégio, geralmente a molecada (eu inclusive) só ia nesses mega-eventos como o Rodin na Pinacoteca. Me lembro especificamente de um colega comentando a imagem do próprio fotógrafo segurando um chicote de uma maneira heterodoxa (era aquele auto-retrato de 1978). Minha repulsa inicial ao trabalho do Mapplethorpe foi por causa de um preconceito adolescente. Hoje desgosto dele por outras razões. Acho as fotos cafonas. Aqueles corpos musculos e aquelas flores não iam causar estranheza num motel de Moema. As fotos dele me lembram estátuas gregas ou renascentistas (que eram imitações de estátuas gregas), e as acho simplesmente desinteressantes.

The boy was in the hallway drinking a glass of tea

“Just Kids” está me irritando por causa do conceito de arte da Patti Smith. Para ela, a Arte (com maiúscula) é uma entidade divina, platônica, que existe num outro plano e que “toca” alguns predestinados. Ela repete inúmeras vezes que “simplesmente sabia” que eles dois viveriam para a Arte. O Robert Mapplethorpe, de uma família fortemente católica, certamente compactuava com essa noção de Arte. As agruras e dificuldades que os dois passaram são narradas como um passo para se alcançar esse objetivo “divino”, como se só pudessem fazer bons trabalhos de arte aqueles que sobrevivem às armadilhas da vida (trabalhar numa fábrica aos 16, engravidar aos 19 e ter que dar o filho para a adoção, ter piolhos, viver em lugares barra pesada, etc.). A noção de Arte como algo divino é até explicitada quando ela diz que ia rezar pelos poetas que ela idolatrava (ela levava “Iluminações”, do Rimbaud, para a igreja como se fosse a bíblia).

Pra mim, o significado do livro é que durante o período narrado ela passou por uma penitência para poder se tornar a grande artista que se tornou. Mas o tom é de ladainha, uma mistura de autocomiseração com orgulho de quem chegou lá.

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