Seção de cartas

Sexta-feira é dia de guia nos jornais. Até hoje não sei como os jornais de São Paulo – principalmente o Estadão, que só lançou o seu em 2004 – demoraram tanto para publicar um guia semanal com todas as opções culturais da cidade. O da Folha, o mais antigo, deve ter uns 15 anos, estourando. Ou seja, só apareceu lá por 1996. Claro que tinha a página de atrações na Ilustrada ou no Caderno 2, mas o guia é muito, muito mais legal. Sempre levo o da semana na mochila. Consulto inúmeras vezes. Principalmente quando tenho que esperar numa fila e esqueci de levar alguma pra ler.

O da Folha e do Estadão se parecem muito. São do mesmo formato e apresentam mais ou menos as mesmas coisas – também não tem muito o que inventar, não é um caderno cultural. Mas os guias têm uma das seções mais legais do jornal inteiro, a seção das cartas de reclamações (nem sei por que escrevo “cartas”, obviamente que ninguém mais manda cartas para as redações). Sempre tem alguma coisa legal.

Vou contar duas histórias da seção de reclamações. Não estou com os textos aqui, vou contar de memória e, claro, haverá várias imprecisões no relato. Mas vamos lá.

O rato no Mestiço.
O Mestiço, para quem não é de São Paulo, serve comida bacana. A “mestiçagem”, no caso, se dá entre a culinária tailandesa e a baiana. O restaurante, justificadamente, lota sempre. Para comer e beber lá é preciso levar uns R$ 50 (chute meu). Uma vez apareceu um rato no Mestiço. Sempre ouvi falar que essa cidade tem quatro ratos por pessoa (às vezes dizem sete), e um deles gostou da ideia de misturar acarajé com curry. Uma leitora da Folha estava lá e não gostou. Ela reclamou com o gerente, disse que era um absurdo, etc. Ganhou um vale-refeição do próprio Mestiço. Mas a consumidora não quis voltar lá e resolveu se desfazer do vale-refeição doando-o para um mendigo. E esse cara foi barrado no restaurante. Os garçons levaram comida pra ele, mas disseram que numa das mesas no restaurante não dava. Na carta, depois de narrar isso tudo, a leitora concluia que no Mestiço rato pode, mas gente não.

(Não li essa história, quem me falou dela foi a Talita).

Vai abrir a sua casa noturna
O Milo Garage está fechando as portas. Parece que o dono vai abrir a casa em outro canto. Fui muito no Milo Garage logo que abriu, antes da expansão. Já faz um tempo que não frequento, mas acho que é realmente hora de mudar. Vou ficar com saudades, me diverti muito e vi shows bem bacanas lá (o melhor foi o do Caxabaxa).

Peguei a imagem do Trabalho Sujo

Se você não é de São Paulo e ainda não entendeu, o Milo é um clubinho noturno. É (ou “era”, acho que aqui o passado é mais apropriado) “indie”, e com isso quero dizer que lá tocava indie rock e indie pop e algumas variações (às sextas, na Chaka Hotnigthz, tocava black music). A entrada custava relativamente pouco. E o charme do lugar estava no clima meio “underground relaxado”. Os frequentadores não usavam traje esporte fino, não tinha hostess na porta, as paredes eram pichadas e não havia distinção de sexo nos banheiros. Eles não aceitavam cartões, você tinha que pagar pela bebida com dinheiro cada vez que ia no balcão. Não era gay no sentido de haver paquera gay, mas era frequentado por gays. Alguns amigos meus que são gays gostavam bastante. Um deles até cantou lá.

Mas não dá para agradar todo mundo. Um leitor da Folha foi no Milo e achou tudo muito ruim. Não lembro dos detalhes da reclamação dele, mas na carta ele maldizia o banheiro e, se não me engano, a fila que se formava na porta (eles embaçavam mesmo). O legal, nesse caso, foi a resposta. O dono do Milo mandou um “dane-se” para o leitor. Disse, basicamente, que aquele era um clubinho alternativo e, se o cara não estivesse satisfeito, que fosse bater em outra porta. Se estivesse mais insatisfeito ainda, que abrisse a própria casa noturna, que era o que ele, dono do Milo, tinha feito. Touché.

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