Detalhes de RC em Detalhes


Tô lendo a biografia proibida Roberto Carlos em Detalhes. Consegui uma cópia em PDF (é fácil achar na internet) e joguei pro meu Kindle. Li 20% do livro (o Kindle não fala a página que você está, mas diz qual a percentagem foi “atravessada”. É meio estranho) e ainda não consegui entender por que o Rei ficou tão contrariado com a publicação. A única história um pouco mais picantes é que o Roberto Carlos chegou a se apresentar como cantor de puteiros quando estava começando. Mas até aí nada demais, ele estava cantando, e não se prostituindo.

Duas coisas chamaram minha atenção na narrativa. Nenhuma delas é o central da história. Uma é que o RC batalhou muito, muito mesmo pra emplacar. Com 15 anos ele foi para o Rio de Janeiro para ser cantor. Fez tudo e mais um pouco para ficar conhecido. Visitou todas as gravadoras, se apresentou em boates, tentou ser cantor de rádio, formou conjuntos (Os Sputniks é hoje o mais famoso), cantou bolero, rock, bossa nova e rock de novo, fez excursões por circos capengas e pequenas casas de shows no interior de São Paulo, esperava horas para ser recebido por qualquer um que pudesse ajudá-lo. O cara foi atrás. E ele fez tudo isso ainda estudando ou trabalhando num emprego burocrático no governo (primeiro no Ministério da Fazenda e depois da Cultura).

O Roberto só começou a ficar famoso quando Celly Campello se aposentou e o Sérgio Murilo, roqueiro mais famoso da época, foi colocado na geladeira pela gravadora (a CBS, a mesma do RC). Acho que a história do Roberto Carlos comprova aquele velho clichê de que sucesso é 90% transpiração e 10% inspiração.

A outra parte da história que chamou a minha atenção é como o esquema das gravadoras no fim da década de 50. Os artistas tinham que se apresentar “ao vivo” para os executivos, porque, claro, era difícil gravar uma “demo”. A tecnologia era caríssima. E havia regras rígidas – não podia haver dois cantores de um mesmo gênero numa mesma gravadora, só os músicos contratados pela empresa eram usados (isso mesmo, eram os mesmos músicos de acompanhamento para todos os artistas de todos os gêneros, samba, bolero, bossa, rock, etc) e o dinheiro para divulgação não era muito farto.

Como disse acima, estou em apenas 20% do livro. Mas acho que aconteceu uma coisa fundamental para mudar a cara do negócio da música no Brasil. O Roberto Carlos aconteceu. Acho que o sucesso que ele alcançou provou que valia a pena investir mais, que os retornos podiam ser exponencialmente maiores, e esses caras começaram a ganhar cada vez mais grana. Até, claro, a mudança tecnológica dos últimos dez anos, que arrasou com as gravadoras.

Agora o meu top five Roberto Carlos.

O Portão
Adoro a viradinha de tempo no refrão. Uma canção simples, na verdade. Se não fosse a orquestra no fundo podia ser uma música do Death Cab for Cutie ou do Wilco. E tem um verso bobo, mas sensacional, que me faz dar uma risadinha de de canto de lábio sempre que ouço: “Meu cachorro me sorriu latindo”.

Detalhes
O ruim de Detalhes é que é a música preferida de, sei lá, uns 60% da população brasileira. O grande mérito é a letra muito sacana disfarçada de romântica. Lembra só da seguinte parte: “Se alguém tocar seu corpo como eu, não diga nada. Não vá dizer meu nome sem querer à pessoa errada. Pensando ter amor nesse momento, desesperada você tenta até o fim e até nesse momento você vai lembrar de mim”. Já parou pra pensar no que ele quer dizer à interlocutora?

Não Vou Ficar
A fase em que o Roberto emulava um negão é minha preferida. Dessa época são canções como Jesus Cristo, Todos Estão Surdos e essa Não Vou Ficar. Todas arrasadoras. Não Vou Ficar é a mais soul de todas essas, e portanto a mais representativa.

Eu te Darei o Céu
Os roques mais legais do Roberto Carlos são que têm pouco de melancolia. Em Quero que Tudo Vá pro Inferno “Onde quer que eu ande tudo é tão triste”, em Corro Demais ele sofre demais, sente saudades, e em Eu te Darei o Céu ele resmunga que “Você pode até gostar de outro rapaz” com uma pitada de tristeza, o órgão chora e ele diz que morrerá se “te perder”.

As Curvas da Estrada de Santos
Também é da fase negão, mas merece uma entrada só dela. Acho que essa é uma das cinco melhores canções brasileiras de todos os tempos.

Se acaso numa curva ele lembra do mundo dele, ele pisa mais fundo

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Arquivado em Paulo César de Araújo, Roberto Carlos

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