Você nem imagina o que você não conheceu

Vou contar o plote inteiro de Wonderful, Wonderful Times, OK? Tudo. Tudinho. Se você não quiser saber, não continue esse texto.

Um casal de gêmeos de uma família disfuncional (pai violento e perneta, veterano da guerra, e uma mãe submissa) praticam violências – maiores e menores, verbais e físicas – dizendo que como essa é a última barreira do que é proibido – e só quem quebra essa barreira é realmente livre. Um raciocínio torto. No fundo, os dois são violentos porque se consideram superiores. Eles lêem livros “difíceis” (Camus, Sartre, Marquês de Sade e Bataille) e “conhecem” arte e assim se acham melhores do que os outros adolescentes.

Esse nhém nhém nhém de violência sendo uma forma de transgressão e, portanto, algo libertário e também arte, é uma maneira de descontar a frustração que sentem por não se verem “reconhecidos”. Eles não têm grana, são alunos medianos e feios. Uma amiga deles, rica, bonita e inteligente faz parte do grupo dos gêmeos – esses três estudam na mesma escola. Completa o grupo um trabalhador da idade deles, forte, órfão de pai comunista, que já não estuda.

Os quatro batem em pedestres, roubam gente que tenta bolinar a irmã no trem, etc… O irmão vai ficando cada vez mais fixado pela amiga rica. Mas ela – e a irmã – preferem o proletário atlético, tosco e ambicioso.

O pai dos gêmeos tem orgulho de ter lutado no exército nazista. Ele bate na mãe, a obriga a tirar fotos pornográficas, paquera mulheres na rua, e, numa cena que não entendi ao certo, se masturba ao lado do filho enquanto esse dirige um carro numa estrada que corta uma floresta na Áustria. O pai é detesável, a mãe é uma coitada.

O livro segue na narrativa difícil, sempre no presente, sem diálogos. Numa hora eles arrumam briga num clube de jazz. Numa outra, dão um golpe num turista do interior – a irmã o seduz, ele acha que vai levá-la pro hotel mas é surpreendido por três adolescentes que arrebentam a cara dele. A irmã trepa com o proletário no pequeno apartamento, e faz barulhos para que a mãe a ouça. Até que o ensino acaba. Os gêmeos ficam desesperados. Eles não sabem o que vão fazer da vida. A irmã é rejeitada pelo proletário. O irmão é rejeitado pela rica. E – vou contar o final – ele pega a arma do pai, mata a irmã com tiros na cabeça, mata a mãe e o pai com pancadas. Ele ainda os corta com um machado. E fica feliz quando a polícia o pega. Na lógica torta do gêmeo assassino, ele não vai perder a liberdade, mas agora sim que ele é livre. Imbecil, né?

Essa última frase, claro, a Jelinek não fala. Ela nunca interpreta o que acontece na trama. O leitor que tem que fazer isso, sempre. E taí uma das dificuldades de ler um livro dela.

Talvez fique mais fácil para quem sabe Alemão. Não sei uma palavra de Alemão. Ler a versão em Inglês exige pacas. Sei que também perdi muito por não conhecer direito a cultura austríaca. Há muitas e muitas referências ao pré e ao pós guerra, que eu não consigo desvendar – a não ser as mais óbvias, literárias, ou o jazz ou os jeans. Sei que para atravessar o livro inteiro foi preciso muita paciência e afinco, e não consegui entender muita coisa. Mesmo assim valeu a pena. E, como já disse aqui, o plote fala um pouco sobre estes tempos em que adolescentes imbecis arrebentam a cara de quem eles achem que merece.

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Arquivado em Elfriede Jelinek, Wonderfu Wonderful Times

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