Pornopopéia II, etc.

“O herói da novela tradicional picaresca, que sobrevive no limite da miséria e usa todo tipo de expediente para ascender no meio hostil, parece estar se tornando o mais bem-sucedido modelo de anti-herói do romance atual. (…)

O cineasta-publicitário fajuto de “Pornopopeia”, de autoria de Reinaldo Moraes, lutando na desflor da idade para sustentar as drogas, o sexo e, enfim, a sua própria vida, se encaixa bem nesse tipo de pícaro ampliado.”

Bem, taí bem descrito o personagem principal do Pornopopéia. Não fui eu que bolou isso, foi o Alcir Pécora, que é professor de literatura da Unicamp. Roubei esses parágrafos de um texto que ele publicou na Folha sobre um livro de um chinês.

E agora vou roubar uma ideia de outro professor de literatura, o David Foster Wallace. Num ensaio sobre o cinema pornô para a revista Premiere, ele dizia que muita gente da indústria tinha uma pose de “sim, sou sujo, sim, sou baixo, mas pelo menos sou sujo e baixo abertamente, e vocês, todos vocês, também são sujos e baixos, mas escondidos”.

O Zeca, o cineasta protagonista de Pornopopéia, é assim. Ele sacaneia os amigos, quer que a mullher se foda, não paga a secretária, é individualista ao extremo mas tem um certo orgulho disso tudo. Ele narra grandes baixezas com uma ponta de satisfação.

Antes, só uma coisa. O mote da história é que seria o relato é uma mensagem que esse protagonista, o Zeca, envia para um escritor. Pornopopéia é construído como se fossem entradas de um diário de alguns dias, que o Zeca diz que vai enviar “para você”. Uma das pistas sobre quem é esse “você” é que esse interlocutor traduziu o livro Mulheres, do Bukowski, para o Português. Li o Mulheres dos meus pais (essa parte da minha adolescência eu fiz corretamente – Bukowski é para ser lido por adolescentes. Se você tem mais de 20 anos e gosta de Bukowski, você é um adolescente tardio). Vou checar, mas dei uma googada e acho que sim, o Reinaldo Moraes traduziu Mulheres.

Pornopopéia é um relato desse herói – ou anti-herói, sei lá – confrontado com milhões de problemas, que vão ganhando proporções épicas. Até o desfecho do livro, pequenos problemas vão surgindo e se fechando, como nas histórias clássicas. Vou voltar para um exemplo que já usei: o Indiana Jontes tem que achar o cálice sagrado, mas antes disso ele precisa se passar por um alemão e convencer, precisa atravessar o deserto cheio de inimigos, e de dificuldade em dificuldade ele chega até a grande questão inicial, colocada no início da trama.

Na primeira parte do livro, o Zeca precisa entregar um roteiro de um vídeo institucional. Mas antes ele vai numa suruba, e precisa se livrar dos inconvenientes que a situação impõe. Depois ele precisa arrumar pó na Augusta, e acaba na casa do travesti traficante – e ele precisa conseguir a cocaína sem ter que transar com o traveco. Depois disso ele precisa arrumar dinheiro para pagar a secretária – e ao longo da trama ele consegue fazer com que a secretária receba. Clássico. Essa grande primeira missão que o Zeca tem que cumprir acaba com a primeira parte. A segunda é um outro tipo de história, uma narrativa policialesca de um cara que é perseguido por um crime que não cometeu. Não vou contar mais para não estragar totalmente o livro para quem quiser ler.

Agora vou parar de escrever porque tô no meu plantão e tenho que editar um VT tão irrelevante quanto um vídeo institucional.

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