Hortas em São Paulo (cidade, não Estado)

((Essa matéria foi publicada na revista Época São Paulo em algum momento em 2009))

Há seis meses, a advogada Gabriela Monteiro de Barros trocou as flores que tinha no fundo do quintal de sua casa, no Jardim Paulistano, por uma horta. Não estava cansada da bela-emília que ficava ali, mas o sol, que bate fortemente naquele canto, deixava a planta seca e amarelada. Gabriela pensou no que fazer com o espaço. Soube que hortas precisam de muita luz e resolveu tentar. Deu certo, e a decisão mudou sua rotina. “Todo dia tenho de inventar um prato para poder usar o que colho”, diz. Para Gabriela, as plantas que ela mesma tira da terra têm um sabor mais pronunciado que as semelhantes compradas no supermercado. “Não dá tempo de perder o gosto. Você colhe o manjericão e coloca no tomate naquele minuto.” Ela conta que tem convocado os amigos para exibir a colheita. Além de serem usados diretamente nas receitas, os produtos da horta também temperam os azeites que ela aprendeu a preparar. Gabriela faz isso por hobby. “Olhar, namorar é o grande prazer. Acho que substitui um pouco o animal de estimação”, afirma. “Quando eu tinha flores aqui, não vinha ao jardim a toda hora. É engraçado: quando você vai comer o que planta, o olhar muda.” Para quem, como ela, vive em ritmo acelerado, a horta oferece uma vantagem adicional em relação às plantas ornamentais: dá bem menos trabalho. “É pá-pum! Em 20 dias, ela cresce. E ainda aguenta um pouco de desaforo: é só regar de manhã e à noite que ela se vira”, diz. “Não é que nem bonsai, que demora 60 anos e precisa de atenção sempre.”

No mundo inteiro, gente que sempre morou em cidades grandes está aprendendo a gostar de plantar e colher a própria comida em casa. Assim como Gabriela, uma outra advogada resolveu converter o jardim em lavoura. No fim de março, a primeira-dama americana, Michelle Obama, deu uma entrevista coletiva para falar sobre sua horta orgânica de 100 metros quadrados. É a primeira na Casa Branca em mais de 60 anos. A última foi plantada pela mulher de Franklin Delano Roosevelt, Eleanor Roosevelt, que em 1943 lançou a campanha dos “jardins da vitória”, conclamando os moradores da zona urbana a plantar seus próprios legumes para apoiar o esforço de guerra. Hoje, a batalha é outra. A intenção da primeira-dama dos EUA é encorajar o mundo a ter uma alimentação mais saudável e, assim, reduzir a dependência de grandes fazendas – que consomem muito combustível com o transporte entre o campo e a cidade, além de utilizar produtos químicos para fertilização e defesa contra pragas.

Em meados de junho, a rainha Elizabeth II aderiu à iniciativa de Michelle Obama e reservou uma área de 65 metros quadrados nos jardins do Palácio de Buckingham para plantar beterrabas, cenouras, milho-verde e uma espécie de vagem em extinção chamada de “rainha azul”. A intenção é, como os americanos, preservar o meio ambiente e promover um estilo de vida mais saudável.

O que Michelle Obama e a rainha Elizabeth esperam é ver um número maior de pessoas que topem trocar o conforto da indústria de comidas prontas por uma relação mais próxima com a natureza. Gente como Silvia Corbucci, de 28 anos, que mora na Vila Madalena, numa casa térrea, com o namorado, a cadela Menina, o cachorro Chien – e também com três bananeiras, um pouco de trigo (não está vingando; a Menina come quando ainda está muito verde), duas cerejeiras (que já estavam na casa quando ela chegou), pés de brócolis, de boldo-do-chile, além de cebolinha francesa, hortelã, erva-cidreira, tomilho, alface, capuchinha, jambo e espinafre.

Silvia se formou em arquitetura, mas não foi trabalhar com projetos de casas. Ela começou a cozinhar profissionalmente num pequeno restaurante e hoje é gerente de alimentos de uma rede de casas especializada em frango. Começou a plantar no segundo ano da faculdade. “Passei a cozinhar e também a ter, timidamente, uma ervinha, um manjericão. Esses vasinhos de supermercado”, conta. À medida que seu envolvimento com as panelas se tornou mais intenso, o propósito de sua horta evoluiu. “Eu planto porque gosto de tomar conta do processo completo da alimentação”, diz Silvia. “Um dos meus objetivos é deixar de participar só do momento do consumo e estar presente também no momento da origem e do destino.” Além da horta, Silvia tem uma composteira no quintal, onde transforma lixo orgânico em adubo. Para ela, plantar a própria comida é, além de tudo, uma forma de poluir menos – cada alface que deixa de comprar no supermercado é uma embalagem plástica a menos que manda para o caminhão.

Nos EUA, uma ideia para, de uma só tacada, reduzir emissões de carbono e melhorar a dieta está ganhando adeptos: tornar-se um “locavore”. O termo designa pessoas que só consomem alimentos produzidos a, no máximo, 160 quilômetros de distância de onde vivem. De dois anos para cá, o movimento cresceu e ganhou a atenção do poder público. Em San Francisco, na Califórnia, as praças próximas à Prefeitura foram convertidas em hortas comunitárias. Em Detroit, as plantações em terrenos baldios fazem parte de um programa de socialização de ex-presos. Nova York e Chicago oferecem subsídios para moradores, escolas e proprietários de edifícios comerciais que queiram transformar seus telhados, floreiras e helipontos em lavouras. Em São Paulo há, também, desde 2004, um programa semelhante, o Proaurp: Programa de Agricutura Urbana e Periurbana. Nele trabalham técnicos de três secretarias (do Verde e do Meio Ambiente, do Trabalho e da Coordenação das Subprefeituras), que ajudam moradores de áreas carentes que queiram trabalhar em hortas comunitárias na cidade. “A gente tem a impressão de que, em São Paulo, não existem mais áreas disponíveis”, diz Nísia Serroni, a coordenadora. “Mas há, sim, e muitas. São áreas públicas, ociosas, que estão virando lixão e que podem ser adequadas para a implantação de hortas.” A maior parte dessas hortas fica em áreas periurbanas, regiões da metrópole com características rurais, como Engenheiro Marsilac e Parelheiros. Nísia estima que, no total, cerca de 250 hortas façam parte do programa, que tem um orçamento anual de R$ 400 mil. A verba paga os técnicos e a compra de insumos, ferramentas e adubos. Além das hortas comunitárias em áreas públicas, o Proaurp também se encarrega daquelas feitas em escolas municipais e estaduais. A colheita é sempre de quem trabalha na terra. Geralmente, os produtores consomem os produtos e vendem o excedente. Há um projeto da Prefeitura para, a partir do segundo semestre, montar barracas de agricultura urbana nas feiras livres da cidade, e dessa forma aproximar produtores e consumidores. Projetos governamentais de agricultura urbana não são novidade. Quando Franco Montoro era governador do estado, a então primeira-dama, Lucy Montoro, tocou um programa semelhante, que foi abandonado posteriormente. Ainda há uma reminiscência dessa época. É um conjunto de hortas cultivadas embaixo das torres de transmissão de energia no bairro de Rudge Ramos, em São Bernardo do Campo. Na década de 80, o programa de governo estabeleceu a plantação no espaço, que mais tarde foi consignado a uma ONG, a Associação Global para o Desenvolvimento Sustentável (AGDS). Até hoje, a AGDS escolhe quem irá plantar na área. Cada beneficiado decide o que cultivar e que destino dar à colheita. A grande maioria opta pelas hortaliças. Segundo Nelson Reis Pedroso, presidente da AGDS, são cerca de 45 mil metros quadrados de plantação divididos entre 80 famílias.

Luiz Roberto dos Santos, um balconista de 37 anos, também gosta de hortas e planta em São Paulo, mas sua trajetória começou no campo. Ele mora desde 1998 na favela do Arriba Saia, que fica na movimentada Avenida Jornalista Roberto Marinho, na altura da Avenida Washington Luís. As casas do conjunto têm um recuo de dez metros do asfalto. Santos aproveitou esse espaço para plantar. Se comparado a qualquer pedaço de terra no interior, os 160 metros quadrados onde ele planta não são nada. Mas numa favela em São Paulo é bastante. “Muita gente vem perguntar da horta. Eu falo que sou da roça e sempre plantei”, afirma Santos. “Lá a gente costumava mexer com terra e eu me acostumei. Arrumei esse pedacinho de terra e resolvi plantar.”

Ele nasceu em Minas Gerais, numa cidade chamada Dores do Turvo, mas foi logo cedo para Abreus, distrito do município de Alto Rio Doce, a 200 quilômetros de Belo Horizonte. Aos 6 anos, começou a plantar com a família. Tinham milho, feijão, arroz, café, “tudo o que era comida dentro de casa a gente colhia na roça”, conta. Hoje, ele é o único que cuida da horta. Segundo Santos, “no começo deu mais trabalho. Tinha muita pedra no terreno e deu trabalho para tirar”. E o movimento incessante de carros traz um problema: a poluição. “As folhas não ficam bonitas por causa da poluição dos carros, que jogam esse pó de asfalto aí. Tem que lavar bem lavado para comer”, explica. O “pó de asfalto” de que ele reclama é uma mistura de desgaste de pneus e fuligem de diesel, explica o microbiólogo Robinson Andrade, da Faculdade de Agronomia da USP. “Pode acontecer de isso se acumular em cima das folhas. Em São Paulo tem muito, mesmo. Quando chove, a mistura vai para o solo e daí a planta absorve”, alerta. “Solos urbanos são mais pobres”, diz Adriana Maria de Aquino, a pesquisadora da Embrapa Agrobiologia. Ela acha que o tipo de plantação ideal para as cidades é a ecoagricultura, que não usa agrotóxicos e restaura a vida na terra. Essas dificuldades, no entanto, não inviabilizam a produção, diz ela. Santos prova isso na prática. Ele fala algumas vezes do talento que tem como agricultor – diz que tem “mão boa”. “Tudo o que eu plantar pega”, declara. Daí a grande quantidade de plantas da sua horta. Tem quiabo, couve, cana, manga, abacate, goiaba, bananeira, manjericão, alecrim e várias outras. Numa colheita, ele diz que já tirou 15 quilos de feijão. Algumas coisas ele deixou de plantar, como alface, por exemplo. É que alguns vizinhos pegavam escondido. Em 2009, Santos decidiu ir além e montou uma pequena granja. Hoje tem 24 galinhas e dois galos. Ele começou a criar os bichos para usar o esterco como adubo. Mas descobriu que podia financiar a horta com a criação. A cada dez dias, Santos vende os ovos para uma lanchonete na Sé. Fatura R$ 35. Gasta R$ 27 em milho e farelo para as galinhas e, com o que sobra, compra sementes. Além disso, quando uma galinha deixa de produzir, ela vai para a panela.

Santos pertence a uma geração mais nova de gente que migrou do campo para São Paulo. Mas, antes dele, outros milhares de pessoas trouxeram os hábitos da roça para cá. É o caso de Dona Luiza Zaia Rosa, de 78 anos, que veio de Rio Claro para a capital aos 20, para trabalhar como empregada doméstica. Sua casa, na Vila Madalena, fica em um terreno de 630 metros quadrados. A área construída é pequena, de não mais de 100 metros quadrados. Todo o resto é ocupado pelo jardim, onde ela aluga 15 vagas de estacionamento, e por uma extensa gama de árvores frutíferas e hortaliças. Tem araçá, caqui, jambo, feijão, milho, chuchu, morango, romã, lima-da-pérsia, pitanga, manga… “Toda a vida eu gostei de plantar”, diz Dona Luiza. Ela vive nesse endereço desde 1970. Há 12 anos, cheia de saudade da roça, mandou construir uma cozinha caipira, onde passa o dia.

Há um forno de barro, no qual assa pães e bolos, e as paredes são decoradas com casca de tatu e de tartaruga, além de telhas pintadas e uma carranca. Tudo bem rústico. “Tinha um coqueiro aqui”, diz Dona Luiza, apontando para o meio da cozinha. “Mas, toda vez que caía uma folha, quebrava as telhas. Eu não queria tirar o coqueiro, mas não teve jeito”, lamenta. As irmãs de Dona Luiza moram a três casas de distância e também têm um quintal parecido com o dela, mas menor e com menos plantas. Elas têm até um poço artesiano. Sem bomba. Usam um balde amarrado numa corda para pegar a água – como se estivessem na roça. Perto dali, no bairro da Lapa, uma paulistana que sempre viveu na cidade se dedica a manter vivas tradições como as das irmãs da Vila Madalena. É Neide Rigo, de 47 anos. Ela se define como uma colecionadora – e cultiva plantas abandonadas pela culinária moderna. “Ingrediente internacional e importado está cheio por aí”, afirma Neide. “Agora, temos alimentos nossos, que estão aqui e aos quais as pessoas não dão mais valor. Acho que precisamos conhecê-los, já fizeram parte da nossa cultura e não podem ser simplesmente deixados para trás.” Em seu quintal, hortaliças consagradas como alface ou rúcula não têm lugar. Os ingredientes que crescem ali são os esquecidos e os injustiçados. Curuá. Mangarito. Araruta. Ora-pro-nobis. Palma. Neide demorou para encontrar algo que realmente gostasse de fazer. Ela estudou três anos de jornalismo. Abandonou para cursar artes plásticas, que depois trocou por nutrição. Quando morava no conjunto habitacional para os alunos da Universidade de São Paulo (o Crusp), começou a plantar na própria Cidade Universitária. Nunca parou. Hoje, além de cultivar, ela faz uma espécie de extrativismo urbano, principalmente na Lapa, onde mora. Caminha pelo bairro, atenta a plantas que passam despercebidas pela maioria. Já catou physalis na calçada, flores de iúca em canteiros de avenidas e araçá no muro de uma casa. Como trabalha com cozinha experimental, transformou cada um desses achados em receitas. Quando foi trabalhar com Neide, a doméstica Eliana de Oliveira estranhou um pouco os hábitos alimentares da patroa. “Descobri que muita coisa que eu sabia que existia podia ser usada para comer”, afirma. “Sou baiana, de Santaluz. Lá tem palma, mas quem come é bicho. Aqui já comi um pão de palma e uma torta. Agora eu gosto.”

Outro exemplo de refeição preparada por Neide: uma salada de toranja com folhas de dente-de-leão (uma plantinha rasteira, sempre confundida com erva daninha, que ela colheu numa praça perto de casa) e trevos (sim, esses trevos que crescem em todo canto sem serem convidados). Para o prato principal, camarão acompanhado de arroz com jurubeba em conserva. A jurubeba é uma planta que parece uma ervilha gigante, e cujo gosto amargo lembra um pouco o do jiló. No meio do arroz, fica suave. Foi Neide mesma que preparou a conserva com a jurubeba que pegou na frente de uma casa em reforma. Os pedreiros lhe disseram que iam derrubar o muro e jogar “aquele mato” fora. Neide tratou de levar tudo para o seu quintal. São Paulo guarda exemplos mais extremos de tentativas de resgatar um modo de viver em maior harmonia com a natureza. No bairro do Campo Belo, na Zonal Sul, perto da movimentada Avenida dos Bandeirantes, uma casa-modelo fundada há sete anos se propõe a provar que é possível viver na cidade causando o mínimo de danos ao ambiente. Trata-se de uma ecovila, chamada de Casa dos Hólons, onde Paulo Peres, de 40 anos, vive em uma cabana de dois andares, feita de materiais descartados, restos de demolição, madeiras encontradas na rua e telhas antigas. Tudo é construído segundo os princípios da permacultura, ciência que estuda a agricultura sustentável.

Na prática, os moradores da Casa dos Hólons reduzem ao máximo o consumo de novos produtos e se esforçam para não mandar detritos nem para o caminhão nem para o esgoto. Tudo é tratado por eles mesmos. Para dar vazão ao adubo literalmente caseiro, eles plantam. Mas essa não é a única motivação: “Plantar sua comida é maravilhoso”, diz Peres. “Não tem nada melhor do que saber de onde vem aquilo que você põe no prato. A gente sente como necessidade básica de vida saber lidar com as plantas, saber usar as plantas companheiras, os defensivos agrícolas naturais.” Ervas, temperos e plantas medicinais compõem os canteiros do jardim. Os telhados das cabanas também fazem as vezes de canteiros e são reservados para as hortaliças que precisam de muita luz. Também foi implantado um sistema de captação de água das chuvas e uma oficina de reciclagem. Peres é paulistano. Cursou biologia, mas não se formou, e foi morar no campo. “Acho que foi uma evolução ter ido morar na roça”, afirma. “Comecei a cuidar de cavalo, ovelha. Em vez de ter cachorro, todo mundo deveria amar as plantas.”

1 comentário

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Uma resposta para “Hortas em São Paulo (cidade, não Estado)

  1. francisco Carlos

    Eu tenho o proposito de cultivar alimento em casa, moro na zona norte da cidade sp. Tem algum projeto da prefeitura que incentiva esses projetos? se conhecer por favor me avise. Tambem gostaria de umas recomendações de sites que ensinam o cultivo e tal….

    desde já muito obrigado!

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