Com Pornopopéia me senti em casa

Foi difícil botar a mão num exemplar de Pornopopéia. Não ia com a cara do livro na prateleira, achava o nome uma forçação de barra, e não me animei a ler nem a orelha. Mas começaram a sair umas matérias elogiosas (uma na Ilustríssima e outra na Piauí) e me interessei. Estava esgotado. Nas livrarias diziam que ia demorar para chegar, e os vendedores era interrogados todos os dias pelo livro. Um frenesi. Encomendei numa loja, chegou e acabei rapidinho. É um livro entupido de ação, e isso facilita.

Gostei.

Pra mim, o grande charme de Pornopopéia é que foi o primeiro livro que li que consegue descrever bem o “mundinho “underground” (mil desculpas, detesto essas duas expressões, mas tô com preguiça de pensar em outras agora) de São Paulo. Quero dizer os puteiros da Rua Augusta, os motéis sujos, os botecos com paredes de azulejo e mesas patrocinadas por marcas de cerveja, etc. Digo isso porque a ação não transcorre nos meios underground-chics de fashionistas (tô sem noção do ridículo hoje, escrevi “fashionista”, “mundinho” e “underground” num mesmo texto. Desculpem, normalmente evito palavras afetadas).

Bem, como dizia: pra mim um dos grandes méritos é a ambientação do livro, que me é muito familiar. O escritório na Rua Alagoas, em Higienópolis, o apartamento em Perdizes, a Rua Augusta, o Bitch (nome do bar escroto que o personagem frequenta) na Capote Valente (rua onde nasci, aliás), os tipinhos daqui. Um pequeno rol desses tipinhos paulistas: caras de meia idade que gostam de The Doors, executivos de marketing que usam expressões cretinas nos escritórios da Vila Olímpia e Berrini, garotas que investem no tipinho sou impulsiva e bem resolvida e tatuada, tiozões de boteco (quando eu frequentava o Charm e o BH, lá por 2000, 2001, detestava esses caras), caras que misturam misticismo e yoga, travestis traficantes, etc…

Quem é de São Paulo finalmente vai sentir sua cidade bem retratada, mais ou menos como quem era da Cidade do México nos anos 70 deve ter se sentido quando leu Los Detetives Salvajes. Acho. E só isso já foi suficiente para que eu gostasse muito de Pornopopéia.

Depois falo da trama, do mote, etc. Agora tô com preguiça. Depois escrevo de Wonderful, Wondeful Times, da Elfried Jelinek.

2 Comentários

Arquivado em Literatura, Pornopopéia, Reinaldo Moraes

2 Respostas para “Com Pornopopéia me senti em casa

  1. Como é que você pode ter certeza que Bolaño retratou bem a Cidade do México da década de 70?

  2. Não tenho certeza. Por isso que escrevi assim: Acho.

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