Wonderful, Wonderful Times

Há uns meses visitei Nova Iorque e conheci a Strand, uma livraria enorme, bagunçada e que oferece livros com bons descontos. Saí de lá com uma coletânea do David Foster Wallace (“A Supposedly Fun Thing I’ll Never Do Again”), uma do Truman Capote (“Portraits and Observations”, com a qual fiquei frustrado mais tarde, quando descobri que já tinha todos os ensaios daquele livro espalhados em outros livros) e Wonderful, Wonderful Times, da Elfriede Jelinek.

Quem quer ser fã da Elfriede Jelinek precisa se esforçar. Procurei uma única aparição dela no Youtube e não encontrei. Numa curta entrevista ao NY Times ela diz que sofre de Agoraphobia – por isso, cabulou até a maior premiação da literatura, o Nobel, em 2004.

(Só coloquei esse videoclipe do Deerhunter aqui porque o nome da música é Agoraphobia. E porque Deerhunter é bom pra caralho!)

Mas não é só por ser arredia que a Elfriede Jelinek é difícil. O trabalho dela também exige muito. Tive três contatos com os escritos dela. Um foi indireto – vi “A Professora de Piano” (fui com o Ricardinho em uma das, sei lá, nove vezes que ele viu “A Professora de Piano” no cinema. Aliás, acho que foi a segunda dele, numa pré estreia, porque a primeira, se não me engano, ele viu na Mostra. E acho que o Jorge, a Maria Emília, a Mariana Sampaio e o Cadu também estavam nessa sessão. Durante o resto da noite, e durante semanas, o Cadu imitava o gesto de se auto-golpear com uma faca sempre que o Ricardo ficava contrariado) É realmente um bom filme – mas é difícil saber até onde vai o mérito dela e onde começa o do Michael Haneke, que dirigiu “Caché” e “A Fita Branca”.

Há uns anos li “Lust”. É muito, muito difícil. Quase não há diálogos, a história demora para avançar, os parágrafos são longos, é difícil distinguir devaneio de acontecimento. Agora estou começando “Wonderful, Wonderful Times”. Ainda bem, é muito mais acessível do que “Lust”.

A ação transcorre nos anos 50, e o livro faria muito mais sentido para mim se eu entendesse as referências do pós guerra na Áustria. Mas a Elfriede Jelinek não facilita. “Wonderful, Wonderful Times” conta a história de quatro adolescentes. Logo no primeiro capítulo, eles escolhem uma pessoa a esma, à noite, em Viena, e enchem o cara de porrada. Te lembra alguma coisa? O objetivo não é roubar o cara. Eles não odeiam a vítima por causa da religião ou pela raça. Eles queriam arrebentar a fuça alguém. Eu, que moro a menos de uma quadra da Paulista, não paro de pensar nos imbecis que atacaram gays aqui perto há alguns meses.

Logo mais tem mais sobre o livro. Agora esse post está muito longo, e eu não leio posts muito longos.

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Arquivado em A Professora de Piano, Bradford Cox, Caché, David Foster Wallace, Deerhunter, Elfriede Jelinek, Literatura, Michel Haneke, Truman Capote, Wonderful Times

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