Liberdade, abre as asas sobre nós

Terminei Freedom. E li uma crítica na Folha sobre Freedom de hoje com a qual concordo parcialmente. O título da nota é “Franzen vai na contramão do pós-moderno”. Não consigo refutar totalmente essa tese porque tenho pouca noção do que é pós-moderno na literatura. Tenho alguns palpites. Acho que aquele recurso de contar uma mesma história por várias vozes, como faz o Bolaño, como faz o William Faulkner, deve ser pós-moderno. E em Freedom tem isso – o romance é contado por narrador onisciente e também numa primeira pessoa (que usa a voz em terceira pessoa, mas é em primeira pessoa). De qualquer maneira, são pelo menos dois narradores diferentes, e acho que o romance clássico não faria isso.

Fora isso, acho que o crítico da Folha acertou. Vou copiar aqui um trecho do que ele escreveu:

“Lá se vão nove anos desde o lançamento do primeiro romance de Jonathan Franzen, “As Correções”, avidamente aclamado mundialmente.

O livro propunha uma volta à literatura humanista, ao mundo interno dos personagens, povoado de sentimentos universais facilmente identificáveis pelo leitor.

Ou seja, colocava-se claramente na contracorrente do pós-modernismo e seus jogos de linguagem, teia de referências e digressões enciclopédicas.

Ganhou mil prêmios -entre eles, o National Book Award-, centenas de milhares de leitores e dividiu águas, deixando a literatura contemporânea em xeque -o espírito de Tolstói, Stendhal e Mann parecia renascer para reclamar a primazia.

‘Freedom’ (liberdade), o aguardado sucessor, surge na mesma direção(…)”

O Daniel Benevides, que assina a nota, faz elogios às qualidades técnicas do Jonathan Franzen (“tudo é descrito de maneira sensível, sem ruídos ou exageros”), e eu faço coro a ele. O enredo é construído de uma maneira que o leitor fica amarrado. Por exemplo, no fim de um capítulo tem um acontecimento inesperado (um telefonema), que não se resolve. Essa ação é suspensa no capítulo seguinte, no qual o narrador faz digressões e conta histórias longas até chegar aquele mesmo momento pelo qual o leitor anseia, o do desenrolar do telefonema. Isso acontece durante quase todas as quase 600 páginas do livro. E isso é boa técnica.

O autor consegue encontrar valores universais que tornam a história interessante e (egoísmo versus altruísmo, desejos versus obstinações, etc). Mas tem um porém. Vocês podem ver em posts anteriores como as referências pop do livro me empolgaram no começo. Depois fiquei acostumado a elas. Os gostos musicais dos personagens são usados para caracterizá-los durante toda a narrativa. O irmão do Walter Berglund, um bêbado chato e meio caipira, ouvia Aerosmith nos anos 80. Os heróis gostam de Sonic Youth (Youth Against Fascism é a canção preferida) e vão no show do Bright Eyes (de quem nunca gostei muito). Isso faz muito sentido hoje. Mas daqui a alguns anos vão ser referências obscuras, que vão dizer pouco para o leitor. (Claro que isso é um palpite, OK?). O que quero dizer é que existe uma chance de Freedom envelhecer mal.

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Arquivado em Freedom, Jonathan Franzen, Sonic Youth

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