Quando Partimos

Quando Partimos. Die Fremde. Feo Aladag. Ontem a Mostra exibiu o filme Quando Partimos, que venceu o júri como o melhor do evento. Quando Partimos conta a história de uma turca muçulmana que cresceu na Alemanha e foi se casar na Turquia. Ela apanha do marido e resolve fugir para a casa dos pais na Alemanha.

Sibel Kekilli é o nome da atriz principal – ela atuou num outro filme bem parecido, chamado no Brasil de Contra a Parede. (Acho que ela fez uma plástica no nariz entre os dois filmes, mas não tenho certeza.) Contra a Parede e Quando Partimos contam a história de mulheres turcas modernas, que cresceram na Alemanha, que se confrontam com as tradições muçulmanas mais estúpidas, irracionais e raivosas. Em Contra a Parede essa trama se entrelaça com a de um looser turco que também é culturalmente alemão, mas etnicamente turco. (Aliás, adoro os filmes do Fatih Akin, apesar de não ter ido ver o filme da cozinha. Não sei se a diretora de Quando Partimos também é de origem turca, como o Fatih Akin. Se ela for, ela é essencialmente uma alemã).

Em Quando Partimos o tema é só luz contra trevas – trevas sendo o mundo muçulmano, antiquado, violento, deslocado no século XXI e estupidamente místico, e luz sendo a sociedade alemã, que protege a heroína sempre que ela precisa. A amiga alemã é compreensiva, amorosa, solidária e bonita. O namoradinho alemão é calmo e hesitante – enquanto os homens turcos são (quase) todos seres explosivos, raivosos, que não pensam um segundo antes de arrebentar a cara da heroína (acho que esse é o filme em que mais homens diferentes batem numa mulher). O único turco menos irascível é o irmão mais novo – e não é uma coincidência, ele é o único dos turcos que é mostrado com amigos alemães, o que se veste de maneira mais ocidental, enfim a segunda personagem turca mais ocidentalizada. A mais ocidentalizada, claro, é a heroína do filme.

Quando Partimos é um bom filme. Provavelmente mereceu levar o prêmio da Mostra. Mas tenho algumas restrições em relação a como o filme caracteriza os muçulmanos. No filme, todos os muçulmanos são figuras do século XVII. Ou ainda mais antigas.

Fui no filme ontem e anteontem tinha lido um ensaio sobre uma outra diretora daqueles lados, a Leni Riefenstahl. Preciso dizer que nunca vi um filme dela, erro que pretendo reparar logo. Tô lendo um livro de ensaios da Susan Sontag. Um dos textos, Fascinating Fascism, é um libelo contra a purificação da Leni Riefenstahl. Pelo que entendi, lá pelos anos 70 o trabalho da cineasta estava sendo reabilitado sob uma mentira que o colocava como uma longa declaração de amor à beleza (a própria Riefenstahl se declarava em entrevistas ser uma fascinada pela beleza), somente, e não o que realmente era – uma fascista, em todos os seus aspectos, como a Susan Sontag mostra brilhantemente.

Um tema secundário no texto me chamou a atenção. Vou copiar aqui um trechinho do texto: “Uma das principais acusações da Alemanha Nazista contra os judeus era que eles eram urbanos, intelectualizados, portadores de um espírito crítico destrutivo. A fogueira de livros de maio de 1933 foi lançada com o grito de Goebbels: ‘a era extrema da intelecutalidade judia agora acabou, e o sucesso da revolução alemã vai abrir caminho para o verdadeiro espírito alemão'”.

Ser urbano, intelectualizado e portador de um espírito crítico é invejável. Tento ser urbano, intelectualizado e portador de um espírito crítico há alguns anos. Obviamente muitos nazistas também queriam ser assim. A raiva que os alemães tinham dos judeus era complexa e multi-facetada. Não era só ódio, tinha uma dose de inveja e uma dose de despeito e vários outros sentimentos.

Já ouviu falar que os turcos, hoje, são o mais próximo do que eram os judeus na Alemanha nazista? É aos turcos que a raiva dos alemães raivosos é direcionada. Mas essa relação, certamente, não é tão complexa como a da década de 30. O filme da Feo Aladag – longe de ser raivoso, pelo contrário, é bom que se diga – mostra turcos desprezíveis, e acho que é isso que o alemão urbano, intelectualizado e portador de um espírito crítico pensa dos muçulmanos. Que eles são simplesmente (esse advérbio aqui é talvez o grande diferencial) desprezíveis.

Deixe um comentário

Arquivado em Feo Aladag, Leni Riefenstahl, Quando Partimos, Susan Sontag

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s