Algumas obviedades não precisam ser ditas

Algumas obviedades não precisam ser ditas. Vi um filme que começava explicitando uma dessas obviedades. Um letreiro explica que a história não “intenta” ser lá muito fiel à vida dos retratados, que seria muito multifacetada para poder caber num longa metragem.

Todas as pessoas do mundo têm seus paradoxos, suas idiossincrasias que nunca poderão ser plenamente contempladas por uma descrição ou narração. Essa é a obviedade que não se diz. Por que a frase no começo do filme, então? Porque é um pedido de desculpas. O filme pede desculpas mesmo antes de começar.

O filme é “400 contra 1”. Entra em cartaz no dia 6 de agosto. É sobre a formação do Comando Vermelho, narrado pelo Professor, um dos principais articuladores do CV no seu início. Fui na cabine. O filme é ruinzinho.

O que mais me incomodou foram os exageros técnicos. Um exemplo: a trilha sonora. Eles inventaram de colocar umas vinhetas sonoras meio blacksploitation entre uma cena e outra – como em Shaft, como em Super Fly. Principalmente nas cenas de ação (roubo a banco, etc), ficou forçado, ficou over. Parece paródia de programa humorístico. E a viheta sonora não dá descanso, o filme inteirinho é pontuado com elas. Mas não dava para esperar muito do Max de Castro, que foi o responsável pela trilha.

Fora isso, tem outra vinheta que incomoda: umas vinhetas gráficas dizendo qual é o ano. Volta e meia aparece 1970 – vinheta. Depois aparece 1980 – vinheto. Ano – vinheta. Ano – vinheta. Ano – vinheta. O pior é que em pelo menos metade das vezes é totalmente indiferente saber qual é o ano em que se passa a ação. Mesmo depois de claro para o espectador quais as ações que acontecem antes e depois da formação do CV, somos informados qual o ano daquilo que estamos vendo num determinado instante.

Outro exagero que irrita foi o do autor dos diálogos (imagino que exista alguém que tenha escrito os diálogos). Ele força a mão na linguagem de malandro carioca. Cidade de Deus, o livro, começou como um projeto sobre a linguagem da periferia do Rio de Janeiro durante três décadas. Os diálogos do livro são sensacionais – têm palavras pouco comuns, mas que fazem sentido naquele contexto, naqueles diálogos. Em “400 contra 1” os diálogos soam forçados, como se existissem apenas para mostrar palavras exóticas. Ouvi até um “precisão”, totalmente deslocado – “precisão” a gente ouve no interior de Minas, no interior de Goiás, não nas favelas do Rio.

Tem um componente técnico que precisa ser elogiado – os atores estão bem. Até o Cazuza está convencendo como Professor.

Agora, em relação à História. Sim, a História com agá maiúsculo, a que realmente aconteceu. Senti falta de ver alguma coisa sobre outros caras importantes para o CV, como o Orlando Jogador, o Escadinha, o Japonês e, principalmente, o Rogério Lemgruber. O nome inteiro da facção é Comando Vermelho Rogério Lemgruber. Se um filme se dedica a mostrar os momentos iniciais do CV, faltou o RL. Que pelo menos dessem uma desculpa plausível para essa ausência. Ah, esqueci – o filme não intenta mostrar como foi, mas só um recorte. Mesmo assim. Isso é muito grande para ficar de fora de qualquer recorte.

E mais uma coisa: o nome do filme é baseado num episódio em que um dos caras do começo do CV, o Zé Bigode, enfrentou, sozinho, 400 policiais numa troca de tiros que durou horas. Entendo que o episódio é simbólicamente muito forte. Mas o Comando Vermelho é, essencialmente, o grupo criminoso organizado mais bem sucedido do Brasil. O “grupo” para eles é muito importante – num xadrez do CV, por exemplo, se falta um pão no café da manhã, ninguém come. Pinçar um episódio de resistência solitária para dar nome ao filme- ou mesmo ao livro que deu origem ao filme, escrito pelo Professor (será que alguém fez a “revisão final”?) parece até sacanagem.

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Arquivado em Cinema, Comando Vermelho

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