Uma discussão para poucos (e eu não sou um desses poucos)

Nunca consegui acompanhar direito discussões sobre plano diretor. Acho complicado, as siglas são para quem já entende do assunto, e não para leigos como eu. Uma amiga minha, estudante de arquitetura, contou que foi numa reunião pública uma vez. Na Câmara. Segundo ela, o público era formado por um monte de advogados de empreiteiras e por gente perdida na sopa de letrinhas dos planos. Imagina quem se saiu melhor nos pedidos para os vereadores?

Recebi um e-mail muito interessante sobre o assunto. A autora é a Raquel Rolnik. E o que ela diz? “O fato é que os paulistanos não sabem o que está sendo proposto. Por isso, antes de votar a proposta, os vereadores deveriam produzir um material com informações claras, mostrando as alterações, incluindo mapas bem precisos e não em linguagem cifrada”. Impossível ser mais pertinente.

Dois parágrafos do texto dela:

Uma outra questão importante que vem sendo muito debatida na mídia é o adensamento da cidade. E ela tem sido colocada de forma falaciosa. Teoricamente, a ideia é que os bairros que têm infraestrutura de transporte coletivo possam receber mais moradores. Entretanto, o zoneamento em vigor (que, ao que me consta, não foi alterado pelo substitutivo) , afetado pelos altos preços dos terrenos onde existe essa infraestrutura, e associado à não existência ou à não aplicação de qualquer instrumento para controlar estes aumentos de preços decorrentes da infraestrutura pública, tem tido como resultado uma verticalização de alta renda nessas regiões.

Como consequencia, em vez de atrair mais moradores, esse modelo vem expulsando a população de média e baixa renda e tem incentivado a moradia para setores que não usam o transporte coletivo, gerando problemas de trânsito e falta de vagas de estacionamento. A discussão em torno do adensamento da cidade, portanto, não pode ficar restrita ao tema do potencial construtivo. Temos que repensar as morfologias, os modelos de ocupação, a relação entre os espaços públicos e privados, a existência ou não de edifícios com garagens, os usos mistos no próprio edifício, entre tantas outras questões fundamentais na discussão da cidade que temos.

Bem, e por que isso tudo nesse momento? Agora, em São Paulo, estão discutindo uma revisão do Plano Diretor. E na quarta-feira, às 10h da manhã, vai ter um ato público para que não se vote nada se não houver mais discussão. Se eu pudesse estar na frente da Câmara às 10h, certamente iria.

2 Comentários

Arquivado em Brasil, Cidade, Plano Diretor, Política, Raquel Rolnik, São Paulo

2 Respostas para “Uma discussão para poucos (e eu não sou um desses poucos)

  1. Diogo Esperante

    E infelismente não há surpresa nenhuma…essa dinâmica fez parte da contrução da maioria dos bairros de SP…leva-se infraestrutura que atrai investimento privado que produz exclusão…Se Bauman tivesse morrido tava dando pulinhos no túmulo…mas como ainda está vivo deve estar com um sorriso amargo no canto da boca onde se le: “I told you so!”

  2. Diogo Esperante

    E infelismente não há surpresa nenhuma…essa dinâmica fez parte da contrução da maioria dos bairros de SP…leva-se infraestrutura que atrai investimento privado que produz exclusão…Se Bauman tivesse morrido tava dando pulinhos no túmulo…mas como ainda está vivo deve estar com um sorriso amargo no canto da boca onde se lê: “I told you so!”

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