Babooshka

Uma mulher velha suspeita que seu marido não a ama mais. Então ela resolve armar para cima dele. Como se fosse uma outra mulher, começa a mandar cartas amorosas, que assina com um nome exótico, Babooshka. O marido reconhece algo familiar nas cartas, eram como as cartas que a mulher mandava quando eles eram mais novos, quando a mulher era bonita e cheia de vida.

A mulher então resolve marcar um encontro. Ela se disfarça para a ocasião. Ele a vê e se apaixona. Essa mulher é como a mulher dele na época em que eles eram jovens.

Babooshka, a música, é a história de uma ideia infeliz. Desculpe a vulgarização, é como se um teste de fidelidade do João Kléber fosse levado a cabo pela própria mulher desconfiada. Segundo a Kate Bush, essa é um conto popular recorrente no interior da Inglaterra que ela transformou em uma letra. Em Dom Quixote tem um causo parecido, o do Curioso Impertinente.

Por causa de um texto do Guardian fui ouvir meus vinis da Kate Bush e vi alguns videos na internet. Babooshka, o maior hit dela, não me agrada muito. Talvez eu tenha ouvido muito e isso tenha esgotado a canção. Não sei. Apesar de não aguentar mais Babooshka, cliquei num vídeo em que ela, jovem, dá uma entrevista sobre essa música.

A Kate Bush soa tão aérea às vezes. Quando ela escreveu a música, não sabia que “Babooshka” é a palavra russa para “avó”. É muito usada como de uma forma carinhosa para se referir às muheres mais velhas. Até eu sabia isso (e achava que fazia muito sentido na história da letra – o fato de a mulher ser mais velha a tornava uma Babooshka, e era assim que ela assinava as cartas para o marido. Mas não, não tem nada a ver, só foi usada pela sonoridade exótica).

Na entrevista a jornalista pede para que a Kate Bush explique a letra, e pergunta à cantora se o marido realmente traiu a mulher. Resposta: claro que não! Ele a ama muito. A história, diz a Kate Bush, é sobre como a gente cria fatos abstratos e irreais que ganham materialidade.

Discordo da Kate Bush. Pra mim, o marido realmente traiu a mulher. Ele não amava a mulher, ele amava a mulher dele quando jovem, que era uma outra pessoa. Ele gostava de uma lembrança, uma recordação. Mas só discordo em relação ao enredo. Porque a ideia por trás é pertinente, e é isso que importa. Criamos fatos abstratos e irreais que ganham materialidade. E às vezes eles nos sufocam – muitas vezes eles nos sufocam.

Um parêtesis. A Beth Dido e o seu Gossip estavam estourando quando foram fazer um show em Berlim. E foram levados para uma festa pós show ou algum outro tipo de festa. A Beth Dido discotecou lá. Um amigo meu também. Acho que o contato entre eles foi mais ou menos esse. Ele me contou, mas não me lembro direito. Atrás da mesa de DJ. Ele, fã de Kate Bush, perguntou se a Kate Bush era uma grande influência. Resposta: “Nunca ouvi Kate Bush, você acredita?”. Na hora o meu amigo deu a ela, de presente, um LP.

Me lembrei disso quando li a tal matéria do Guardian. O jornal pergunta a uma série de jovens artistas sobre a Kate Bush. Alguns dizem que sim, que ela é importante para eles. Mas o que mais me chamou a atenção: “Joanna Newsom, perhaps the only artist who comes close to Bush in terms of otherworldliness, has had nothing to say on the matter, nor should she have to.”, estava escrito lá. Na minha cabeça, tanto a Joanna Newson como a Beth Dido ouviram The Kick Inside no repeat quando adolescentes. Mas às vezes a gente cria fatos abstratos e irreais que ganham materialidade. Fim do parêntesis.

4 Comentários

Arquivado em Estranhamento, Inglaterra, Joanna Newson, Jornalismo, Kate Bush, Música, The Gossip

4 Respostas para “Babooshka

  1. Max

    eu ouço the kick inside e never for ever no repeat!

  2. Rebeca

    que eu saiba o adultério já vem do coraçao
    então ele traiu.

  3. jerry

    Eu não desculpo a vulgarização… o trabalho da kate bush é performático e tem grande profundidade e realismo psicológicos. Esse artigo carece de maturidade. Talvez o autor devesse se limitar a analisar as letras do funk.

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