Será que o Demétrio Magnoli tá ficando gagá?

Cotas raciais. Não sei se sou favorável. Tendo a ser contrário por uma única razão: é muito, muito difícil determinar quem é negro e quem não é. O Mano Brown soltou, no Roda Viva, que tem branco de olhos azuis que é negro – por se identificar culturalmente. A polícia, claro, sempre sabe quem é negro e quem não é. Talvez devêssemos chamar a Rota para dizer quem eles parariam numa blitz. Quem fosse “abordado” seria beneficiado com as cotas.

Mas quero dizer aqui o seguinte: acho que o Demétrio Magnoli está ficando gagá. Completamente gagá. Ele quis defender o Demóstenes Torres numa coluna publicada na Folha hoje.

Vou reproduzir partes do texto dele:

AS PESSOAS , inclusive os jornalistas, podem ser contrárias ou favoráveis à introdução de leis raciais no ordenamento constitucional brasileiro. Não é necessário, contudo, falsear deliberadamente a história como faz o panfleto disfarçado de reportagem publicado nesta Folha sob as assinaturas de Laura Capriglione e Lucas Ferraz (“DEM corresponsabiliza negros pela escravidão”, Cotidiano, 4/3).

A invectiva dos repórteres engajados contra o pronunciamento do senador Demóstenes Torres (DEM-GO) na audiência do STF sobre cotas raciais inscreve no título a chave operacional da peça manipuladora.

O senador referiu-se aos reinos africanos, mas os militantes fantasiados de repórteres substituíram “africanos” por “negros”, convertendo uma explanação factual sobre história política numa leitura racializada da história.

Não: ninguém disse que a “raça negra” carrega responsabilidades pela escravidão. Mas se entende o impulso que fabrica a mentira: os arautos mais inescrupulosos das políticas de raça atribuem à “raça branca” a responsabilidade pela escravidão.

Bem, ele parte para mostrar com frases históricas como os africanos vendiam seus conterrâneos e concluir que aqui há “falsificação, manipulação e mentira aqui. Sempre em nome de poderosos interesses atuais”.

Agora, alguém inteligente e sem problemas de esclerose vai discorrer sobre o mesmo tema. O Elio Gaspari:

A TEORIA NEGREIRA DO DEM SAIU DO ARMÁRIO

O senador Demóstenes Torres (DEM-GO) é uma espécie de líder parlamentar da oposição às cotas para estimular a entrada de negros nas universidades públicas. O principal argumento contra essa iniciativa contesta sua legalidade, e o caso está no Supremo Tribunal Federal, onde realizaram-se audiências públicas destinadas a enriquecer o debate.

Na quarta-feira o senador Demóstenes foi ao STF, argumentou contra as cotas e disse o seguinte:

“[Fala-se que] as negras foram estupradas no Brasil. [Fala-se que] a miscigenação deu-se no Brasil pelo estupro. Gilberto Freyre, que hoje é renegado, mostra que isso se deu de forma muito mais consensual”.

O senador precisa definir o que vem a ser “forma muito mais consensual” numa relação sexual entre um homem e uma mulher que, pela lei, podia ser açoitada, vendida e até mesmo separada dos filhos.

Gilberto Freyre escreveu o seguinte:

“Não há escravidão sem depravação sexual. É da essência mesma do regime”.

“O que a negra da senzala fez foi facilitar a depravação com a sua docilidade de escrava: abrindo as pernas ao primeiro desejo do sinhô-moço. Desejo, não: ordem.”
“Não eram as negras que iam esfregar-se pelas pernas dos adolescentes louros: estes é que no sul dos Estados Unidos, como nos engenhos de cana do Brasil, os filhos dos senhores, criavam-se desde pequenos para garanhões. (…) Imagine-se um país com os meninos armados de faca de ponta! Pois foi assim o Brasil do tempo da escravidão.”

Demóstenes Torres disse mais:

“Todos nós sabemos que a África subsaariana forneceu escravos para o mundo antigo, para o mundo islâmico, para a Europa e para a América. Lamentavelmente. Não deveriam ter chegado aqui na condição de escravos. Mas chegaram. (…) Até o princípio do século 20, o escravo era o principal item de exportação da economia africana”.

Nós, quem, cara-pálida? Ao longo de três séculos, algo entre 9 milhões e 12 milhões de africanos foram tirados de suas terras e trazidos para a América. O tráfico negreiro foi um empreendimento das metrópoles europeias e de suas colônias americanas. Se a instituição fosse africana, os filhos brasileiros dos escravos seriam trabalhadores livres.
No início do século 20 os escravos não eram o principal “item de exportação da economia africana”. Àquela altura o tráfico tornara-se economicamente irrelevante. Ademais, não existia “economia africana”, pois o continente fora partilhado pelas potências europeias. Demóstenes Torres estudou história com o professor de contabilidade de seu ex-correligionário José Roberto Arruda.

O senador exibiu um pedaço do nível intelectual mobilizado no combate às cotas.

45 Comentários

Arquivado em Cotas, Demétrio Magnoli, Gaspari, Jornalismo, Política

45 Respostas para “Será que o Demétrio Magnoli tá ficando gagá?

  1. Karin

    Não entendi por que o Demétrio Magnoli está gagá. Em nenhum momento ele defendeu a tese do Demóstenes Torres de que a miscigenação foi consensual. Tudo bem que ele podia ter negado, o que seria bem mais nobre, já que esse comentário do Senador foi bem infeliz.
    Agora, você negar que a escravidão começou na África. Em qualquer livro de história ou voltado a sociologia em que se trate o assunto ” escravidão, voccê encontra isso. Ecravidão se iniciou, sim, por instituições africanas. Com iso, nõ tô querendo diminuir a culpa dos europeus, que gostaram da ideia e continuaram o horror do cativeiro aos negros. A questão é que acho um absurdo alguém chamar um grande geógrafo e intelectual como o Magnoli de gagá por ele ter falado a verdade.

    Desculpe os erros. O computador está dando problema.

  2. Nathaniel Roberto, não existem pessoas “erradas”, e eu não escrevi isso em nenhum momento. Existem raciocínios tortos, como o que assume que se alguém não sabe responder uma crítica é porque esse alguém “não paga imposto e mama nas tetas do governo”.

  3. igor

    Gostaria de opinar que a escravidão é um modelo africano, criado para dominar as tribos perdedoras. Realmente não tem como distinguir quem é negro ou branco, basta citar o meu caso que sou filho de um pai “negro” e mãe “branca”, tenho uma pigmentação, biologicamente falando, escura mas não me considero negro e muito menos minha namorada… pois somos todos brasileiros e não precisamos de rótulos ou marcas. meus costumes, ritos e linguagem são tipicamente deste pais não sou diferente de ninguém apenas por ter “pele mais escura” e apesar de já ter sofrido diversos tipos de racismo não pretendo apoiar políticas de segregação que tem por finalidade instituir no Brasil duas raças distintas. A realidade que nossa sociedade enfrenta é a de diferença de classes pois as pessoas são descriminadas por serem pobres, mulheres, homossexuais. . . independente da cor. Não nego que exista o racismo, pois já sofri com isso, mas separar brasileiros em duas “CORES” distintas em vez de discutir temas que diminuam a ocorrência do mesmo, como uma maior distribuição de renda ou melhoria da educação oferecida pelo Estado.

    • Igor, eu não sou historiador. Não sei dizer quando começou a escravidão. Mas acho que deve ter aparecido em diferentes pontos do globo em diferentes épocas. A gente está falando da escravidão mercantilista do Idade Moderna, certo? E essa podia até ter o auxílio de africanos. Que, sem saber, também eram vítimas.

      • A escravidão começou na Idade Antiga, na Mesopotâmia, na Grécia Antiga , onde os vencidos eram submetidos escravidão. Já n África era muito comum , as tribos vencedoras reduzirem o vencidos a escravidão.

  4. cahlil

    Olá,

    há uma diferença grande entre concordar com alguém e defender o direito a opinião alheia, seja ela igual ou não a sua. Sob o meu ponto de vista, é isso que demetrio faz. Não vi em suas citações juizo de valor, ainda que saiba que o sociologo é publicamente contra as cotas. Pra mim, no referido texto, a temática não é cotas, mas a distorção da declaração do senador com fim partidário pela autora.

  5. Arlindo

    Demétrio & Demóstenes. Olha que bom nome para uma dupla sertaneja. O primeiro é academico demais, e não conhece a vida como ela é (vide apresentação no Roda Viva). O segundo é uma anta mesmo.Realmente podemos ficar sem essas representações para discutir assunto tão importante.

  6. herbert

    Esses srs. que falam asneira sobre o Dr. Demtrio e o parlamentar Demostenis estão ‘ enfezados’ . Há outra explicação para tanta bobagem ? Ô povo feio…

  7. Luiz

    O acesso á universidade através de cotas, deveria ser direcionado às classes social e financeiramente desfavorecidas.
    Uma grande maioria negra seria favorecida, óbviamente, por ser predominante na classe pobre.
    O Racismo existe, é latente e tenta ser cordial; principalmente no Brasil.
    Só quem foi excluído sabe que a luta é interminável.

  8. Desculpem-me. Falar de política de ctas épara mim discriminação pura. Sou totalmente contra a essa “coisa”. Se fosse negro teria vergonha de entrar numa faculdade pela porta da cozinha. O negro precisa ser tratado como gente e cidadão em nosso pais desde quando nasce e não numa polític assistencialista para alguns políticos tirarem vantagens em cima disso. É uma vergonha falar disso, dá nojo . Se for para ele, negro, ter cotas para entrar na faculdade, que tenha também uma “Progressão continuada ” para ele não ser reprovado também ! Já para o branco não, se não tirar nota, seja reprovado. É brincadeira esses políticos “tiriricas ” do Brasil, pô”. Falei!!

  9. Demétrio Magnoli é uma das raras cabeças pensantes do Brasil. Oxalá nosso país tivesse mais uma dúzia de pensadores lúcidos como ele. Mexeu com algum tabú? É assim que as mentiras vão se tornando vedade no Brasil

    • Adriano

      Ele pensa muito e vê pouco, fala e não ouve, tudo que é social ele critica, ele tem um pensamento pequeno e elitizado, o grande defensor da burguesia paulista arrogante e preconseituosa.

    • Laurence Magno

      concordo plenamente com você quando da lucidez dele.

      realmente, quem dera o Brasil tivesse mais gente assim – e além disso tem um bom humor que outros academicos nao tem.

      sera que ele tem twiter ou e-mail. vc tem?
      obrigado.

  10. Rodrigo

    Também considero Demétrio um dos intelectuais mais lúcidos e atuantes do nosso país.Mesmo discordando dele em muitas questões,percebo que há muita sinceridade naquilo que ele fala.Não me parece alguém que está a serviço de interesses escusos.Expõem seus argumentos de forma clara e objetiva,mesmo quando trata de assuntos polêmicos.É natural que uma pessoa como essa incomode muita gente,inclusive dentro do mundo acadêmico.O que mais chama a atenção é que seus críticos raramente o contestam no campo das ideias,preferem partir para os ataques pessoais.Exatamente como foi feito no post acima.

    • Petrucio

      Demetrius está a serviço de uma elite conservadora que enriqueceu durante 350 anos de escravidão e tem mais, muitos estão no parlamento Há mais de 150 anos. São eleitos sucessivamente, pelo fato, de serem donos de rádios e canais televisivos, que se transformaram em verdadeiros currais eleitorais.

  11. CACD

    Dedicam-se mais a destruir do que a construir.
    Seus comentários não debatem, desqualificam.
    Quase nunca são afirmativas, mas reativas.

  12. Guh

    Você é realmente muito inteligente! conseguiu deduzir que o Demétrio não conhece a “vida como ela é” apenas analisando o fato dele ser “academico demais” e ter assistido a participação do mesmo no Roda Viva.
    Grande comentário!

  13. Eu não deduzi isso. E não vi a “participação” daquele cara no Roda Viva. Sinceramente, prefiro ler a lista telefônica.

  14. Ancelmo

    O post é uma besteira, escrito sobre conclusões precipitadas. O tal de gutierrez devia procurar por aulas de interpretação de texto antes de sair escrevendo qualquer coisa por ai.

  15. Diogo

    Procurem estudar um pouco sobre como funcionava a escravidão na África e verão como era em moldes completamente diferentes da escravidão transatlântica, não podendo, portanto, compará-las.

  16. Fabio

    Desculpem-me mas não quero fazer aqui uma valoração com relação aos “diferentes tipos de escravidão “mas é fato que o modelo de exploração da mão de obra para obtenção de lucros nos Países que eram colônias da europa foi uma invenção dos brancos europeus graças a esse regime (através do comércio tiangular) que foi possível também o surgimento do capitalismo: comparar a escravidão praticada pelas tribos africanas contra outras tribos africanas com a exploração da mão de obra para obtenção de lucros instituída pelos europeus no modelo de escravidão transatlântica me parece um erro!Nesse sentido o senhor Diogo que já postou um comentário aqui está certo em sua analise.

  17. Adauto Pereira

    Deixe-me ver se estou entendendo: temos um problema sócio-econômico grave e atual de jovens (na sua maioria negros ou pardos mas nem todos) que estão fora da ascensão educacional por razões econômicas, pois não podem custear boas escolas de nivel médio e ingressar nas boas escolas públicas que são gratuitas, e por isso esta se discutindo as origens do escravagismo, se a escravidão africana nos séculos passados foi criada por europeus ou reis africanos? E os jovens (brancos ou negros) continuam excluídos das oportunidades por terem origem em familias pobres. Não sei se as cotas são a única ou melhor solução para o problemas, mas qualquer solução tem que ter por objetivo mudar a realidade de hoje, e não subterfugios para resgatar dividas socias de nossos ancestrais. Senão continuaremos discutindo e deixando nossa população para tras. Chega de discussão e vamos trabalhar que dá mais certo.

  18. Fabio

    Mas é justamente do que se trata as cotas uma forma de tentar reparar o processo pernicioso gerado pela escravidão.A questão é simples em nosso país racista o branco pobre possui maiores oportunidades que os pobres negros,isso é fato comprovado estatisticamente,agora mesmo para criarmos soluções para os problemas sociais atuais devemos analisar o passado,e se necessário, criarmos ações afirmativas (como as cotas ) para ao menos tentarmos solucionar os problemas oriundos da exclusão sócio- racial em nosso país.Um estado democraticamente constituido que despreza a analise de sua história nunca alcançará a igualdade,e sempre manterá os velhos privilégios das classes dominantes.Simples !

  19. Tenho amigos de origém negra, que ao registrarem seus filhos, há vinte anos, não esperavam que haveria cota para o seus filhos na universidades,…….registrando-os como BRANCOS,…..todos filhos perderam a cota e os pais a dignidade de serém negros.

    E PONTO FINAL

    CARLOS BROSSI

  20. Argentino Domingues

    Malucos ! A escravatura africana não desarticulava,nem desentegrava tão grandemente,as sociedades africanas como aquela Ocidental fez!As cotas não envergonham,compensão!portanto, elas não envergonham,nem são uma vergonha.Viva o Demétrio Magnóli e abaixo o racismo e os seus disfarces.Luanda_Angola.

  21. Argentino Domingues

    Gerard Jerry Bender,um estudioso “estadunidense´´numa abordagem sobre o racismo e a , miscegenação ,que «…Não se pode confundir erotismo com igualitarismo.Não se deve assumir que porque se deita com uma pessoa de raça diferente,quer isso dizer que considera o/a parceiro/a como um/a igual ».pensem nisto.Quanto ao Igor,direi que não passa,o seu posicionamento,de um complexo.As cotas têm a sua razão de existência e não é nenhum assistêncialismo.É uma justa reposição.Luanda_Angola.

  22. Não li o Magnoli, mas pelo que se comenta aqui, ele acusou os africanos pela “invenção” da escravidão na América. É absolutamente errado, seja moral ou historicamente, comparar a escravidão praticada entre as tribos africanas com a européia. Só o deslocamento forçado de nações inteiras e o desmembramento das famílias já configurariam mais crueldade. Lá os negros cativos eram prisioneiros, aqui eram uma raça estranha, diferente, inferior. Não eram pessoas, eram animais, coisas, objetos. De qualquer forma, os brancos já tinham uma civilização bem mais avançada, foi uma covardia que até hoje gera conflitos, como os que observamos aqui nesse forum. Quanto às cotas, a intenção foi boa, mais negros (e pseudo-negros) ascenderão socialmente. Em compensação (negativa), na comparação com formados brancos, haverá sempre a reserva:”Para ele foi fácil, entrou nas cotas” ou, em caso de erro: “Também, foi formado nas cotas”. Se vai dar certo, só o futuro dirá. Espero que sim.

  23. hugo veloso

    Olha, quem está visivelmente gagá é Elio Gaspari.Quando ele diz: “No início do século 20 os escravos não eram o principal “item de exportação da economia africana”.” ele pega uma frase desbaratada de Demóstenes Torres e foge do tempo em que se desenvolveu a escravidão brasileira: séculos XIX a XIX. No século XX, já havia sido abolida a escravidão no Brasil e Europa… Aliás, quem acabou com a escravidão foram os ingleses, que proibiram o tráfico de escravos no mundo. Houve, inclusive, grande pressão popular na Inglaterra para que a escravidão acabasse.

    Outro argumento esclerosado de Gaspari é “Se a instituição fosse africana, os filhos brasileiros dos escravos seriam trabalhadores livres.”… como Gaspari é cansativo… o fato de ter havido escravidão nos séculos XVI a XIX no mundo não significa que não havia anteriormente escravidão na África. E havia. Foi o que facilitou o comércio de escravos africanos e inviabilizou a escravidão de indígenas, para os quais tal instituição não existia.

    Gaspari inteligente? Ora, se esse texto dele tem alguma inteligência é só para a má-fé.

    • O que você enumera não muda em uma linha o que o Gaspari disse. Entendo que você queira mostrar o quanto conhece de históri, mas com isso só consegue ser, num comentário de três parágrafos, mais cansativo do que 30 colunas do Gaspari. Criança.

    • Vivian

      Seu conhecimento de história veio do Google e só do Google. Vc não entendeu nada do que leu, pelo jeito… Volte para o ensino médio.

  24. Dar a César o que é César!!!

    É interessante dizer que a escravidão africana configura-se como fenômeno e a transatlântica, como sistema. Daí a grande diferença entre a escravidão existente na África e a que fora largamente perpetrada pelos colonizadores europeus no atlântico. Como consta em alguns comentários acima, a escravidão enquanto fenômeno não desarticulava ou desmembrava sociedades inteiras, muito menos colocava o escravo numa condição de inferioridade que demarcaria o lugar ocupado por este na escala social: o escravo por dívida ou guerra não era um objeto, um ser animado que encerrava em si a sua diminuta existência. Lá os escravos poderiam ser incorporados à sociedade quais estavam submetidos, se estes casassem ou mesmo em dias de trabalho pagassem as suas dívidas, deixariam esta condição e lograriam certa ascensão social,(podendo até fazer parte da “Família Real” daquelas sociedades) o contrário da escravidão experienciada nestas terras brasilis, aqui a escravidão era institucionalizada, estimulada e naturalizada.
    Decerto que as questões raciais foram incorporadas dentro desta discussão a partir do século XIX, quando respaldas nas teorias racistas advindas da Europa (Lombroso, Gobineau) justificavam a incapacidade intelectual e a debilidade do negro, inferiorizando-o. Estávamos no finalzinho da escravidão, fazia-se necessário afastar “essa gente odiosa e degenerada” da participação efetiva nas decisões políticas, de ocupar postos públicos, de gozar igualmente dos plenos direitos que os sinhôs e as sinhás. Era, talvez, um certo receio da inversão da ordem que até aquele momento era imposta: Senhor dominando escravo; temia tornar-se vítima da vítima pretérita: ex-escravo dominando ex-senhor. Vítimas algozes! Balela. Tudo isso serviu muito bem a um modelo de Estado que em toda sua história privilegiou com suas benesses santoantonianas uma pequena parcela da população que pouco colaborou na construção das riquezas desta terra; que nada, a moral cristão estava neles todos disseminada, impregnada como nódoa de bananeira. Trabalhar é imoral, não dignifica, nada tem de nobre, e o nosso maior sonho era ser nobre, mesmo distante da tradição européia medieval de sobrenomes que lhes garantiriam os títulos nobiliárquicos.
    É muito importante salientar que todo e qualquer posicionamento pró ou contra cotas precisa ter no mínimo a decência de voltar os olhos para o passado, para a nossa história, dando aos acontecimentos de agora um respaldo da historicidade da sua própria constituição, não nascemos da areia quente, essa realidade que está ai posta não surgiu do nada, buscar entendê-la, desfazendo os nós que o presente nos impõem, “desanuviar” os olhos da miopia proposital de certo setores da nossa sociedade, isso sim é fazer um debate digno, coerente, democrático e possibilitador do diálogo entre os diferentes interesses que perpassam os atores que atuam em nossa sociedade.
    Dar voz aos silenciados da história é a sensatez que nos falta para pensarmos o Brasil com todos seus problemas e limitações, vendo toda gente que o constitui como a força motriz para superação das suas debilidades históricas.
    Que consigamos dialogar com o mínimo de decência que esta discussão exige e que se mostra premente em nossa sociedade. Não dá para negar que a favela tem cor, bem como os presídios, o subemprego e toda sorte de lugares e níveis desumanos de existência! No Brasil, falar em garantias de direitos para os historicamente pobres e marginalizados é mexer em cobra com vara curta!!!!!

  25. Dar a César o que é César!!!

    errata: onde tem moral cristão, troca-se por moral cristão católica.

    • Jorge

      A escravidão na idade moderna foi um negócio, um excelente negócio. Negros e negras eram mercadoria e um valioso bem. Foram administrados como tal. Ajustando o cenário, não tão diferente assim de como são tratadas hoje as classes mais pobres. Agora, pelo menos mais universal, visto seja qual for a origem, etnia ou credo, o tratamento é um só: “apartheid” social. Sou de aparência branca, olhos verdes e cabelo liso, mas sei que tenho descendência, européia, judaica, indígena e africana. Não penso em qualquer compensação para a minha quarta parte afro-descendente. Não aceito cotas raciais e acho que esse assunto desvia o fulcro do problema, que é o da necessidade de cotas sociais. Cotas sem o assistencialismo político atual. “Cherchez l’argent” e vamos encontrar a origem de TODOS os nossos problemas: o Capital. Estão aí as manifestações mundiais em seu repúdio. Debates ou instrumentos que não priorizem ou não imputem ao poder econômico culpabilidade de uma situação que se arrasta a milênios, são simulacros inócuos. Debates raciais somente interessam a energúmenos racistas e às elites no topo da cadeia econômica.

  26. vc e um merda!!!! so fala merda!!! seu burro !!! seu bosta!!!!

  27. quem falou merda foi esse blog !!!e um burro e so fala merda!!! seu bosta vc q e um gaga!!! e racista!!!!

  28. adriano viaro

    Incrível. realmente incrível. falar de escravidão sem propriedade, torna-se tão perigoso quanto ser racista. estudar escravidão sem ler os relatos de navios negreiros, sem aprofundar-se nas biografias dos grandes abolicionistas, sem ter fundo de razão, sem ter nada. a “escravidão negra” (completamente diferente [e anacrônica] em relação as “outras escravidões” da história) não é de culpa africana. na africa existiam guerras tribais. apenas e tão somente guerras tribais. agora… dizer que a tomada de Ceuta em 1441 fez alavancar um processo escravista por culpa e participação africana… é incrivelmente podre! má fé é pouco para definir tal conceito. os europeus (em especial portugueses, ingleses e espanhóis) mercantilizaram negros através da conquista, e descoberta de ouro, em terras colonizadas. criaram um mecanismo mais sincronizado que a própria roda para explorar material humano através de açoites, grilhões, manilhas e libambos! por favor jovens leitores e debatedores. por favor, tenham um mínimo de informação, antes de confiar nas palavras de seres inescrupulosos e corruptos. o racismo nesse país é um problema proveniente de uma abolição absolutamente invisível. a lei áurea libertou brancos e não negros. retirou dos brancos a culpa, enquanto que deu aos negros a favela. falta tempo, e espaço, para relatar tudo o que é necessário. falta tempo, e espaço, para dizer o quão “indecente” é o conceito de que a culpa é africana pela escravidão. infelizmente me falta espaço. bom dia.

  29. O que o Demétrio Magnoli afirma é que não foram os portugueses quem escravizaram os africanos, estes compraram escravos assim tornados por outros potentados africanos e à venda nas fortalezas litorâneas. O que ele afirma (e isso é história elementar) é que a escravidão não foi um fato racial, não foi um evento onde brancos escravizaram negros, mas um fato geopolítico. Não eram “negros” os escravizados, mas “africanos” e é bem diferente uma coisa e outra.

  30. Postei o comentário acima após a leitura do texto, este eu posto depois de ler os comentários (como sempre em temas dessa natureza) exaltados e ofensivos. Desse modo não pretendo retornar aqui e deixo um último comentário sobre o que o autor do texto afirma já na primeira frase. Há um outro motivo para ser contra as cotas raciais: porque tomar um indivíduo pela cor de sua pele é uma indignidade, isso sim é racismo e da pior espécie.

  31. Jorge

    Deixo mais esse comentário em respeito aos debatedores de verdade. Ratifico o que disse anteriormente, o cerne do problema é o capital. A escravidão dos nascidos em África foi apenas uma oportunidade financeira e não busca a seres humanos capazes mas inferiores racialmente.
    Enquanto não encararmos o poder do capital acima de tudo, como origem de quase todos os nossos males, a escravidão moderna não será extinta. Combater o capital especulativo e acumulador é eliminar a desumanidade, tanto quanto o combate aos Estados não-laicos, mas isso é matéria para outros debates.

  32. Iris

    Como disse Demétrio no Canal Viva “Raça é coisa de cachorro”.

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