Agora começa a Mostra. Entre os filmes que vão ser exibidos está Berlin Alexanderplatz, do Fassbinder. São mais de 15 horas, já que originalmente foi uma minissérie.
Segundo a Susan Sontag, esse é um dos filmes adaptados mais fiéis a um livro. Justamente por ter essas horas todas.
Estou pensando há muito tempo em ver. E agora minha vontade aumentou. Isso porque acabei de ler o livro do Döblin. E é empolgante.
Berlin Alexanderplatz é, na definição do seu autor, um épico. Por que ele classificou o trabalho assim? Épico, na minha cabeça, é uma história heróica de um povo.
Homem forte, grande, bruto, cafetão, ladrãozinho, bêbado, gauche, tosco, bobo, Franz Biberkopf quer ser simples, honesto, quer tratar bem as mulheres, fica contratiado quando descobre que sua namorada faz programas – mas depois aceita e vira “protetor” dela, fica chateado quando descobre que seus amigos são uma gangue – mas depois se junta a eles. Despreza os socialistas, mas frequenta as reuniões com um amigo, igualmente ladrãozinho. Um outro amigo o joga para fora do carro, ele perde um braço. Mas segue em frente.
Franz Biberkopf é um herói do lumpen proletariado, uma nação de pobres desorganizados. E ele sofre estoicamente, mas tenta se recuperar seguidamente. Ouve a canção da morte, mas não sucumbe. E é por isso que o livro é um épico.
A Alemanha pré nazismo é o cenário. Mas, como todas as boas obras, aquela Berlim frenética não é só aquela cidade naquele momento, mas todas as grandes metrópoles. Alexanderplatz era a praça onde os semi-mendigos se reuniam. Acho que era uma espécie de Praça da Sé. Mesmo conhecendo Alexanderplatz (a de hoje, claro) eu pensava na Praça da Sé enquanto lia.
Claro que todos que leem a tradução perdem muito. O Döblin reproduziu a maneira de falar dessa “gentalha” de Berlim da época. (Como o Herman Melville pegou os trejeitos dos marinheiros do século XIX.) E esse sotaque não é só um sotaque, porque descreve bem como eram aquelas pessoas.
Bem, este post está muito longo. E esses são os que fazem menos sucesso. Vou tentar resumir. Pra mim, o grande mérito do livro não é a linguagem e o fluxo de consciência (nem sei se isso é realmente fluxo de consciência, mas que é bem parecido, é) ou a captura da atmosfera. O grande lance é que ele conseguiu contar boas histórias dessa gente desprezada, feia e suja.
PS: eu sou muito burro. Berlin Alexanderplatz passou na Mostra passada. É que o site ainda tem os filmes lá, e eu me confundi. Mas isso não é problema, os DVDs estão nas locadoras, dá para pegar.
2 Comentários
20 Outubro, 2009 às 11:05 pm
Não sei como os fãs do autor deste espaço não prestigiam seus posts longos. Alexanderplatz pra vc pode ser a Praça da Sé, mas onde estariam os semi-mendigos?
Hmm, pra mim..eles estariam na República, com tostões furados pra ver um pornô ao lado da Olido.
21 Outubro, 2009 às 11:58 am
Olha…clica…
Ia dar um RT, mas vc já deve tá por dentro do assunto.
http://bit.ly/17OQKE