Lançamentos nacionais

Nem são tão novos assim, mas os li agora então aí vai:

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Se no filme homônimo o enredo é o mais interessante, o legal de Cidade de Deus, o livro, são os diálogos. Não me interesso muito por linguagem. Mas, neste caso específico, a maneira como os personagens falam valem mais do que a história (ou as histórias). Em Desde que o Samba é Samba é mais do mesmo.

Não tenho muita certeza, mas acho que o Paulo Lins estudou a maneira como os cariocas falam para depois, meio que sem querer, virar escritor. Fez certo.

O pano de fundo do novo livro (que ainda não terminei) é a invenção do samba moderno e da umbanda. Os personagens que ele descreve não foram inventados por ele –a maioria é de figuras históricas como o Ismael Silva e o sambista Brancura. O pano de fundo do novo livro não importa. Se o que acontece com essas figuras corresponde à verdade factual muito menos. Tampouco as intrigas e as soluções de enredo. O legal, de novo, é a escolha de palavras.

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Talvez a única coisa que seja comum a todas as minhas ideias é que elas sejam minhas, diz um dos vários narradores de A Vida Obscena de Anton Blau.

Quando li essa frase achei que referia-se ao próprio livro. Talvez a única coisa que dê unidade a ele seja que tudo foi escrito pela mesma autora, de nome Maria Cecília Gomes dos Reis, pensei num primeiro momento.

Mas não. Há a narrativa da trajetória do tal Anton Blau. Não é o mais importante, mas está lá. Os outros trechos, a mistura de filosofia, de religião e autodepreciação fazem sentido juntos.

Apesar do livro ter sido descrito como “pós-moderno” (não tenho ideia do que seja isso), acho que dá para notar uma herança de histórias como Memórias de Um Sargento de Milícias e até mesmo Memórias Póstumas de Brás Cubas no volume.

Enquanto eu ia lendo, ia pensando que o tal Anton Blau levou uma vida besta, cheia de miudezas e apoquentações pequenas, mais ou menos como os protagonistas desses dois outros livros.

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Turista de favela

Nesse domingo conheci o Morro Dona Marta, em Botafogo. Foi uma visita rápida e, portanto, minhas ideias sobre o lugar são superficiais.

Tenho um pouco de vergonha de dizer, mas fiquei com medo de levar o celular para fotografar. Bobagem minha. Ainda mais para uma manhã chuvosa de domingo, quase sem pessoas nas escadas e vielas.

Fiquei impressionado com a organização da favela. Logo de cara, na primeira ladeira, vi um mega estacionamento de bicicletas acorrentadas nelas mesmas (ou seja, com a roda travada). Na minha cabeça, bicicleta é indício de civilidade.

Um morador me viu andando no pé do morro e, sem que eu dissesse nada, me indicou onde era a entrada do bonde (que eu realmente pretendia tomar).

Quando o elevador chegou vi que aquilo faz uma diferença enorme para o lugar. O lixo desce do alto para a base da favela de bonde. E isso faz toda a diferença do mundo. Claro que tem lixo nas escadas e nas vielas, mas não mais do que nas ruas do Rio, bem mais sujas do que as de São Paulo (toma essa, Eduardo Paes).

O bonde tem quatro paradas. Saí na primeira, fui andando até a segunda, depois saí de novo e fiquei perambulando por lá. Chovia e estava nublado, então não vi a cidade do alto. E nem gente nas escadas.

Andei um bom tempo. As casas, claro, são todas de alvenaria, algumas têm três andares, e há até mini-edifícios no meio da favela. O segundo andar costuma ser mais largo do que o primeiro, principalmente nas casas que ficam perto das escadas.

O Dona Marta deve ser uma das favelas mais ricas do Brasil, e é evidente que trabalhadores especializados construíram as casas.

Depois de um tempo me enchi de bater perna e fui pegar o bonde para descer.

Em todas as vezes em que esperava o bonde fui abordado por moradores que queriam puxar conversa. Na subida, dois deles começaram falando sobre cachorros, já que tinham três lá. Um dos caras me explicou que cachorros são como gente –as cadelas só deixam os maiores montarem nelas, mesmo que os pequenos se esforcem para agradá-la.

Depois ele me contou como consegue, todos os dias, o mesmo bônus da operadora de celular (eu não entendi).

Na volta, um catador de latas me relatou minuciosamente como encontrou, num desses cestos de plástico na rua, uma sacola com cinco latas de cerveja cheias e geladas. Ele imagina que eram de alguém que queria muquiar as latas momentaneamente para pegar depois. Provavelmente um motorista que se aproximava de uma blitz. Como o bonde demorava a chegar, o morador também fez comentários sobre uma cena que havia visto na TV, um avião caindo e pegando fogo. Eu não sei do que se trata.

Chamou minha atenção o fato de tantas pessoas terem conversado comigo. Nunca conversei com os vizinhos do prédio onde moro há três anos, e nem tenho vontade. Mas gostei de falar com os moradores do Dona Marta.

É evidente que eles sabiam que eu não era de lá. E talvez por isso quisessem que eu me sentisse confortável. Ou então eles são conversadores, mesmo. Ou então trata-se de um motivo econômico: quando saí vi, já em Botafogo, um totem com explicações turísticas sobre o morro -ou seja, turistas de favela, como eu, já são esperados, e turista, claro, é sinônimo de dinheiro. Eu mesmo deixei lá um pouco que gastei com miudezas.

Depois, seguindo o meu programa de turista, fui tomar um banho de mar.

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Ciclista chato reclamando (eu)

Pra mim, Big Me, do Foo Fighters, é um dos melhores clipes dos anos 90. É uma sátira aos anúncios televisivos imbecis na qual a banda, em diversas situações estranhas, é “anistiada” de suas pequenas contravenções (todas justificadas) ao mostrar que consomem uma bala. É como se na cidade houvesse um acordo tácito pelo qual quem gosta da tal “Footos” pode fazer tudo.

Bem, agora meu ponto de babiker ciclista charo: às vezes sinto que todos os motoristas de carros têm um arranjo parecido.

A tolerância dos motoristas com ciclistas é quase nula. Sou fechado inúmeras vezes a cada percurso que faço. Quando um carro quer me ultrapassar, fica buzinando incessantemente atrás de mim. Já cansei de ouvir gente burra dizer que eu deveria estar na calçada (taxistas, principalmente).

Mas motoristas são compreensíveis e tolerantes com os maiores absurdos que carros fazem. O maior exemplo são carros parados em fila dupla sem ninguém reclamar. Mas tem outros. Carros que querem atravessar a outra pista para entrar em outra rua e seguram o trânsito. Imagina se um ciclista faz isso. Se ele segurar um carro que seja vai ser pressionado até. Mas tudo é permitido a um outro carro. Eles gostam de “Footos”.

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Vício em adrenalina

Há um tempo passou um filme em que o Leonardo DiCaprio interpretava um ladrão de sonhos. Ele conseguia entrar no inconsciente da pessoa enquanto ela dormia, e daí levava fórmulas secretas ou coisas desse gênero.

Por essa lógica, era possível entrar em um sonho dentro de um sonho. E assim havia múltiplas cenas de ação concomitantes, em lugares completamente diferentes (na neve, numa cidade grande indefinica, num castelo medieval chinês, etc).

Basicamente, a ideia dos sonhos serve para mostrar um monte de cenas de ação. Se o espectador é fã dessas cenas, é um filmaço. Eu acho cena de ação um porre, aquelas em que o mocinho quaaaase não consegue escapar, mas no finzinho escapa, depois de uns três ou quatro problemas inesperados.

The Tiger’s Wife apareceu em várias listas de melhores ficções de 2011. Quase sempre faziam menção à pouca idade da autora, que tinha 26 quando publicou o livro.

Chama-se Téa Obreht a moça. É a cara da Geisy Arruda, aquela do vestido rosa choque. Mas chega dela. Vamos lá pro livro.

Me lembro um pouco o filme com o Leonardo Dicaprio. Tem ação nos Balcãs no entreguerras, durante a Segunda Guerra, na Iugoslávia, na guerra da Bósnia, no pós guerra da Bósnia; ação com tigres, com caçadas de ursos, ciganos, delinquentes que têm a desculpa que uma guerra pode acabar com a cidade a qualquer momento; tem ação no estilo realismo fantástico, no estilo “pessoa normal confrontada com situação anormal” e mais aventura deve aparecer nos 30% que restam para eu terminar.

O livro é bom.

Mas tava aqui pensando, como os romances contemporâneos são entupidos de adrenalina, não? Sem trocadilho, essa ação toda está começando a cansar.

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O que importa do Oscar

Pra quem gosta de cinema mesmo, o Oscar é irrelevante. O festival importante mesmo é Cannes. Mas tem duas categorias em que costumam escolher filmes bons. Ou muito bons. Sempre tento assistir todos os indicados a melhor documentário e melhor filme estrangeiro.

No ano passado, por exemplo, concorreram ao melhor documentário “Exit through the giftshop”, “Restrepo”, “Inside job”. (“Lixo extraordinário” também concorreu, até torci por ele, mas era bem pior do que esses três.)

Ao melhor filme estrangeiro concorreram “Biutiful”, “Em um mundo melhor” (que venceu) e (meu preferido) “Incêndios”.

Esses seis filmes são mais interessantes do que o chatinho “O discurso do rei”, que ganhou o prêmio máximo.

Resumo: apesar o Oscar ser uma bobagem, lá no meio tem coisa boa. Nesse ano, “A separação”, que está em cartaz em São Paulo, pode ganhar. É um filmaço. É iraniano, mas não imagine que por causa disso é modorrento, tem cenas longas, aparentemente sem sentido. É um roteiro verborrágico, que lembra mais “Quem tem medo de Virginia Woolf” do que “Gosto de cereja”.

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China no Brasil

China in Ten Words é uma compilação de dez artigos sobre a China escritos por um dos maiores romancistas vivos do país, o Yu Hua.

Ele parece obcecado com as diferenças e semelhanças entre a China da Revolução Cultural e a atual. “Irmãos”, ficção que li dele, também trata disso.

Ao ler o livro, eu comparava tudo o que ele dizia sobre a China com o Brasil, e acho que nenhum leitor que não seja chinês evita essas comparações.

Pegue a atual febre por consumir dos chineses. O Yu Hua credita isso a uma falta quase total de consumo nos anos anteriores à abertura. Ele usa a metáfora de um balanço de criança –quanto mais alto vai para um lado, mais alto vai para o outro, também.

É um pouco do que vivemos aqui, também, com a tal nova classe média (não aguento mais ouvir isso). Claro, por motivos inteiramente diferentes e numa proporção muito menor, mas isso é nítido, em qualquer canto do país.

Outra coisa: os memes. Uma das palavras que o Yu Hua descreve é “bamboozle”. Já há uma imprecisão na tradução do chinês para o inglês. Pela descrição, talvez o ideal seja “malandro”. Na verdade, seria mais um verbo, como “malandrear”.

O mais legal é como essa palavra em chinês ficou famosa no país: um comediante de TV a popularizou e mudou o sentido dela (antes era alguma coisa como se equilibrar de pé numa canoa). Quando eu era moleque, foram incontáveis as novas palavras ou expressões que apareciam na TV e entravam na moda, e ainda hoje surgem algumas assim. Menos, é verdade (a internet virou a grande geradora dessas expressões).

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O melhor dos comentários do cinema

Gosto de conversas no cinema. Acho engraçado saber o que as pessoas estão pensando do filme. Talvez o que eu goste mais sejam os comentários “soltos”. Principalmente em sessões a R$ 1, na Galeria Olido ou no CCSP.

No último domingo fui numa sessão do filme Clima Frio, da Mostra Mumblecore. Em um momento um dos personagens arruma um emprego numa fábrica de gelo. Ele vai contar a novidade para a irmã, que recebe a notícia com surpresa e frustração.

- Uma fábrica de gelo?
- É. Por que, tem algum problema?
- Não, não, não tem nenhum problema. Eu nem sabia que existiam fábricas de gelo.
- Claro que existe, da onde você acha que vem aqueles cubos de gelo perfeitos?
- Não sei, acho que nunca tinha pensado nisso.

Duas amigas que estavam sentadas na fileira atrás da minha deram risadas. Uma delas, empolgada, fez questão de dizer que já tinha pensado de onde vinhas os cubos de gelo perfeitos.

No mesmo dia, mais tarde, vi The Puffy Chair, no CCSP. Trata-se de um road movie americano. Em um momento que as coisas dão errado, meus vizinhos exclamaram: “Ih, agora já era!”.

O mais legal mesmo foi uma sessão de filmes do Norman Mclaren há uns seis anos. Eu estava desempregado e entrei na sala do CCSP numa tarde de um dia de semana. Na época não se pagava nada para entrar, e acho que tinha uns 30 moradores de rua que resolveram passar o tempo do mesmo jeito que eu. Alguns, visivelmente bêbado, berravam “a bolinha!” ou “mas, rapaz!” e se esborrachavam de dar risada.

Às vezes irrita. Vi Dogville na Mostra, alguns dias antes de entrar em cartaz. A sala, no shopping Frei Caneca, estava entupida de gente, e o filme pra lá das 23h. O fim é tenso –a família da Nicole Kidman chega e as coisas ficam tensas. A uma altura, um imbecil gritou “esse eu mesmo pego, hahaha!”. Nunca vi ninguém tão massacrado por uma plateia. O cara foi muito, muito xingado.

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