Vício em adrenalina

Há um tempo passou um filme em que o Leonardo DiCaprio interpretava um ladrão de sonhos. Ele conseguia entrar no inconsciente da pessoa enquanto ela dormia, e daí levava fórmulas secretas ou coisas desse gênero.

Por essa lógica, era possível entrar em um sonho dentro de um sonho. E assim havia múltiplas cenas de ação concomitantes, em lugares completamente diferentes (na neve, numa cidade grande indefinica, num castelo medieval chinês, etc).

Basicamente, a ideia dos sonhos serve para mostrar um monte de cenas de ação. Se o espectador é fã dessas cenas, é um filmaço. Eu acho cena de ação um porre, aquelas em que o mocinho quaaaase não consegue escapar, mas no finzinho escapa, depois de uns três ou quatro problemas inesperados.

The Tiger’s Wife apareceu em várias listas de melhores ficções de 2011. Quase sempre faziam menção à pouca idade da autora, que tinha 26 quando publicou o livro.

Chama-se Téa Obreht a moça. É a cara da Geisy Arruda, aquela do vestido rosa choque. Mas chega dela. Vamos lá pro livro.

Me lembro um pouco o filme com o Leonardo Dicaprio. Tem ação nos Balcãs no entreguerras, durante a Segunda Guerra, na Iugoslávia, na guerra da Bósnia, no pós guerra da Bósnia; ação com tigres, com caçadas de ursos, ciganos, delinquentes que têm a desculpa que uma guerra pode acabar com a cidade a qualquer momento; tem ação no estilo realismo fantástico, no estilo “pessoa normal confrontada com situação anormal” e mais aventura deve aparecer nos 30% que restam para eu terminar.

O livro é bom.

Mas tava aqui pensando, como os romances contemporâneos são entupidos de adrenalina, não? Sem trocadilho, essa ação toda está começando a cansar.

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O que importa do Oscar

Pra quem gosta de cinema mesmo, o Oscar é irrelevante. O festival importante mesmo é Cannes. Mas tem duas categorias em que costumam escolher filmes bons. Ou muito bons. Sempre tento assistir todos os indicados a melhor documentário e melhor filme estrangeiro.

No ano passado, por exemplo, concorreram ao melhor documentário “Exit through the giftshop”, “Restrepo”, “Inside job”. (“Lixo extraordinário” também concorreu, até torci por ele, mas era bem pior do que esses três.)

Ao melhor filme estrangeiro concorreram “Biutiful”, “Em um mundo melhor” (que venceu) e (meu preferido) “Incêndios”.

Esses seis filmes são mais interessantes do que o chatinho “O discurso do rei”, que ganhou o prêmio máximo.

Resumo: apesar o Oscar ser uma bobagem, lá no meio tem coisa boa. Nesse ano, “A separação”, que está em cartaz em São Paulo, pode ganhar. É um filmaço. É iraniano, mas não imagine que por causa disso é modorrento, tem cenas longas, aparentemente sem sentido. É um roteiro verborrágico, que lembra mais “Quem tem medo de Virginia Woolf” do que “Gosto de cereja”.

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China no Brasil

China in Ten Words é uma compilação de dez artigos sobre a China escritos por um dos maiores romancistas vivos do país, o Yu Hua.

Ele parece obcecado com as diferenças e semelhanças entre a China da Revolução Cultural e a atual. “Irmãos”, ficção que li dele, também trata disso.

Ao ler o livro, eu comparava tudo o que ele dizia sobre a China com o Brasil, e acho que nenhum leitor que não seja chinês evita essas comparações.

Pegue a atual febre por consumir dos chineses. O Yu Hua credita isso a uma falta quase total de consumo nos anos anteriores à abertura. Ele usa a metáfora de um balanço de criança –quanto mais alto vai para um lado, mais alto vai para o outro, também.

É um pouco do que vivemos aqui, também, com a tal nova classe média (não aguento mais ouvir isso). Claro, por motivos inteiramente diferentes e numa proporção muito menor, mas isso é nítido, em qualquer canto do país.

Outra coisa: os memes. Uma das palavras que o Yu Hua descreve é “bamboozle”. Já há uma imprecisão na tradução do chinês para o inglês. Pela descrição, talvez o ideal seja “malandro”. Na verdade, seria mais um verbo, como “malandrear”.

O mais legal é como essa palavra em chinês ficou famosa no país: um comediante de TV a popularizou e mudou o sentido dela (antes era alguma coisa como se equilibrar de pé numa canoa). Quando eu era moleque, foram incontáveis as novas palavras ou expressões que apareciam na TV e entravam na moda, e ainda hoje surgem algumas assim. Menos, é verdade (a internet virou a grande geradora dessas expressões).

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O melhor dos comentários do cinema

Gosto de conversas no cinema. Acho engraçado saber o que as pessoas estão pensando do filme. Talvez o que eu goste mais sejam os comentários “soltos”. Principalmente em sessões a R$ 1, na Galeria Olido ou no CCSP.

No último domingo fui numa sessão do filme Clima Frio, da Mostra Mumblecore. Em um momento um dos personagens arruma um emprego numa fábrica de gelo. Ele vai contar a novidade para a irmã, que recebe a notícia com surpresa e frustração.

- Uma fábrica de gelo?
- É. Por que, tem algum problema?
- Não, não, não tem nenhum problema. Eu nem sabia que existiam fábricas de gelo.
- Claro que existe, da onde você acha que vem aqueles cubos de gelo perfeitos?
- Não sei, acho que nunca tinha pensado nisso.

Duas amigas que estavam sentadas na fileira atrás da minha deram risadas. Uma delas, empolgada, fez questão de dizer que já tinha pensado de onde vinhas os cubos de gelo perfeitos.

No mesmo dia, mais tarde, vi The Puffy Chair, no CCSP. Trata-se de um road movie americano. Em um momento que as coisas dão errado, meus vizinhos exclamaram: “Ih, agora já era!”.

O mais legal mesmo foi uma sessão de filmes do Norman Mclaren há uns seis anos. Eu estava desempregado e entrei na sala do CCSP numa tarde de um dia de semana. Na época não se pagava nada para entrar, e acho que tinha uns 30 moradores de rua que resolveram passar o tempo do mesmo jeito que eu. Alguns, visivelmente bêbado, berravam “a bolinha!” ou “mas, rapaz!” e se esborrachavam de dar risada.

Às vezes irrita. Vi Dogville na Mostra, alguns dias antes de entrar em cartaz. A sala, no shopping Frei Caneca, estava entupida de gente, e o filme pra lá das 23h. O fim é tenso –a família da Nicole Kidman chega e as coisas ficam tensas. A uma altura, um imbecil gritou “esse eu mesmo pego, hahaha!”. Nunca vi ninguém tão massacrado por uma plateia. O cara foi muito, muito xingado.

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Luta inglória

Em uma das cenas de A Árvore da Vida, o personagem interpretado pelo Brad Pitt ensina o filho a tirar ervas daninhas do gramado. Ele insiste na importância do garoto arrancar a raiz, porque assim a praga não volta. O menino tenta imitar o gesto do pai. Ele não consegue. Esse diálogo é o mais importante do filme inteiro.

Em várias tomadas vemos o jardim cheio de buracos, e numa das cenas finais, pai e filho colhem pés de hortaliças estragadas por alguma praga.

Se você vive em Marte e não sabe o que é A Árvore da Vida, trata-se de um filme do Terrence Malick que venceu Cannes. Foi bancado e estrelado pelo Brad Pitt. Ele faz esse pai extremamente rígido e às vezes irascível. A história se desenvolve no núcleo familiar, aparentemente nos anos 50.

A grande ideia do filme é que a natureza é mais forte do que a nossa vontade. Por mais que o pai queira, a mão do filho não é suficientemente grande ou ágil para arrancar a raiz da erva daninha, e as pragas sempre voltam.

Mas se é fato que a natureza é mais forte do que a nossa vontade, também é fato que a nossa vontade faz parte da natureza. (Frase estranha, parece que foi escrita pelo Patropi, da Escolinha do Professor Raimundo, mas faz sentido.)

A justaposição de longas cenas da natureza com cenas urbanas estão lá para lembrar que o homem faz parte da natureza, e portanto que as criações dos homens também fazem parte da natureza. Esse texto tá muito odara? O Terrence Malick sempre colocou longas cenas da natureza nos filmes dele. Mas dessa vez isso é central.

O pai rígido demais tenta vencer a natureza (o jardim é uma metáfora, ele tenta vencer a natureza dos filhos e dele próprio) com o que ele considera características mais virtuosas. E o grande problema dele é não perceber que essa é uma luta inglória.

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A Língua dos seguranças

- Oi, amigo, tudo certo? Deixa eu te pedir um favor, hoje está chuviscando, pode chover mais tarde. Será que posso amarrar minha bicicleta embaixo desse pórtico, na grade, nessa parte que não é saída de carros e não tem como abrir?
- É por que está chovendo, né?
- É, e é ruim para a bicicleta, ela é antiga.
- Entendi. Espera um pouco que vou chamar o meu supervisor aqui pelo rádio para perguntar para ele. Um momentinho só.
- Ok.
- Câmbio, fulano.
- Câmbio.
- Um rapaz aqui quer amarrar a bicicleta no portão.
- Não, peraí, eu coloco a bicicleta na jardineira todos os dias, explica que hoje está chov…
- Nil? Câmbio? Câmbio. Ele não autorizou.
- É claro que ele não autorizou, você não disse que estou pedindo isso por causa da chuva e nem que é na parte que não abre!
- Não é não, amigo, ele não autorizou.

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Palpite que vale dinheiro

Situação hipotética: antes do jogo, comentaristas de futebol dão palpites sobre qual será o resultado. Nenhum deles acerta. Por isso, eles criticam o campeonato, que não é estável.

Pode parecer surreal, mas juro que li uma reportagem assim. Só que não se tratava de futebol, e de economia. Não vou dizer onde isso foi publicado.

Uma das funções do Banco Central (na verdade, do Copom) é determinar a taxa de juros básica, a Selic. Como todo mundo sabe, muitas consultorias vivem de palpitar sobre o que o Banco Central deverá (ou deveria) fazer. Essas consultorias preveem, antes das reuniões do Copom, qual deverá (ou qual deveria) ser o destino da Selic.

A lógica dessa reportagem era bastante tortuosa. Dizia que na gestão Tombini o nível de acerto é menor do que na gestão Henrique Meirelles. E o fato de as consultorias estarem errando mais implica em mais inflação.

Ah, claro, as consultorias estão errando por uma falha do novo Banco Central! O BC é mais imprevisível e dá poucos sinais (única crítica com a qual concordo, o presidente deveria dar uma entrevista coletiva logo depois da reunião do Copom).

No Brasil, a taxa básica começou a ser determinada a cada mês e meio. Antes era apenas um mês. Os analistas usam as atas das reuniões passadas para tentar adivinhar o que o Copom vai fazer. Acontece que em um mês e meio muita coisa pode ter mudado. E a ata da reunião passada ficou velha demais! A reportagem, claro, não mencionava isso.

Não gosto de metáforas futebolísticas, mas essa é bastante propícia. Há diferenças, claro. Os comentaristas esportivos que palpitam qual será o resultado do jogo não têm conflitos de interesses – para eles, pouca coisa muda se o Corinthians vence, empata ou perde do Palmeiras. Mas essas consultorias ganham (ou perdem) dinheiro se a Selic sobe, fica igual ou baixa. E isso deve ser mais explicitado.

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A bicha de bordel realmente existia?

Ontem fui num filme cubano chamado “Cartas do Parque”. É ruim (apesar de ter sido dirigido pelo Tomás Gutierrez Alea), e não vou gastar tempo o descrevendo. A história se passa em 1913, numa cidade provinciana de Cuba. Um dos núcleos da história é um bordel, e entre as putas tem uma bicha. Uma bicha afetada, com roupas espalhafatosas, trejeitos muito femininos e que fala de uma maneira exagerada. As mulheres o adoram, e os clientes o toleram, dão risadas de algumas de suas graças.

Em “Toda Nudez Será Castigada” também tinha um personagem parecido. Procurei no YouTube uma cena para colocar aqui, mas não encontrei de jeito nenhum. Então vou transcrevê-la. Amanhece no puteiro. Na noite anterior, a Geni atendeu o Herculano, pai do Serginho, e, por isso, está feliz. O gay do bordel abre a janela e diz: “bom dia, sol!”. A Darlene Glória/Geni abre a porta da sala e diz: “bom dia, bicha!”. Como todo o resto do filme, a cena é sensacional.

Me lembrei desse caso, mas há outros. Pode reparar, todos os puteiros de filmes que se passam “no passado” têm bicha de bordel. É uma figura divertida, está quase sempre bêbada e se deixa ridicularizar por todos.

Hipótese 1: a bicha de bordel é totalmente ficcional, os roteiristas/diretores a colocam nos filmes para dar um clima descontraído aos puteiros.

Hipótese 2: os roteiristas/diretores colocam a bicha no bordéis porque realmente havia bichas loucas nos bordéis. Talvez eles fossem mercadoria diversificada para clientes com gostos heterodoxos (talvez heterodoxo não seja uma boa palavra). Talvez eles ajudassem na administração da casa, e para isso era melhor que fossem gays.

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O som de alguém caindo aos pedaços

Dá para ouvir, no Youtube, algumas das fitas que a Judy Garland gravou. Ela queria escrever uma biografia, e por isso comprou um gravador. Pela voz dela, dá para imaginar que o aparelho só deveria ser ligado depois que acabava a segunda garrafa.

Alguns trechos são de partir o coração. Nesse daqui ela começa falando mal de jornalistas, e depois elogia o marido (provavelmente o quinto), que, segundo ela realmente a amava. Perto do fim dessa gravação, xinga o ex-marido e empresário e que levou seu dinheiro, e os advogados e juízes que, mancomunados, a separaram de seus filhos. “Eu sei bem como criar três crianças, e fiz isso bem!”

No fim ela ainda reclama dos fãs que escreviam para ela. E termina com uma frase: “Vão pro inferno, eu vou para a igreja todos os domingos!”.

A Judy Garland veio de uma família de artistas. O pai era um gay enrustido, a mãe era extremamente invejosa do talento da filha. Quando a garota se tornou uma estrela mirim, a mãe a fazia trabalhar incessantemente, e para isso, a viciou em anfetaminas.

Sem dinheiro, no fim da vida ela chegou a se apresentar por US$ 100. A atriz e cantora morreu pobre, com apenas 47 anos, mas parecia ter 67. A causa foi uma overdose.

Ela era – e ainda é – um ícone gay. Os protestos do bar Stonewall, em Nova Iorque, aconteceram nas primeiras horas do dia 28 de junho de 1969. A Garland tinha morrido no dia 27. O Rufus Wainright, um cantor muito talentoso e muito gay, é tão fã da Judy Garland que ele refez inteirinho o show dela em Londres. A apresentação, assim com as fitas dos monólogos da atriz, está disponível no Youtube.

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Americanos, trumais e krahôs

Apesar de eu me considerar relativamente bem informado sobre literatura, nunca tinha lido nada do Bernardo Carvalho. Peguei e terminei, rapidinho, “Nove Noites”.

“Nove Noites” me lembrou bastante “Os Detetives Selvagens”, do Roberto Bolaño. Nos dois livros, um personagem busca a história de alguém que já está morto (a poeta “real-visceralista” Cesárea Tinajero e o antropólogo Buell Quain). Nos dois casos, esse alguém viveu aventuras em lugares insólitos, distantes, de difícil acesso – nos desertos de Sonora dos anos 70 e no Bico do Papagaio, nos anos 30. Os personagens – e portanto, os leitores – só têm fragmentos das histórias remotas. Esses personagens não servem apenas como “desculpas” para relatar os acontecimentos do passado distante (e, portanto, possibilitar ao leitor uma identificação na sua “busca”); eles também passam por suas histórias, narradas entremeadas com as dos “heróis” do passado.

Além disso, as duas histórias têm um fator extrínseco em comum, há nelas elementos verdadeiros misturados aos ficcionais. Claro que todos os romances são assim. Mas esses o são de uma forma particular. Muitos dos personagens realmente existiram.

Em “Os Detetives Selvagens” o Bolaño usa pseudônimos – até para ele mesmo, que, dizem, seria o Arturo Belano. Em “Nove Noites” eles têm os mesmos nomes das pessoas – Buell Quain foi realmente um antropólogo americano que se matou no Brasil em 1939.

“A indistinção entre fato e ficção faz parte do suspense do romance. Por isso não vejo sentido em dizer o que é real e o que não é”, disse o Bernardo Carvalho ao site Trópico. Gosto dessa cortina de fumaça entre o que é real e o que é inventado.

Esporte krahô. O Quain se matou quando voltava da tribo para a cidade de Carolina, MA

A entrevista é super interessante para quem já leu o livro. O link está aqui.

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