26 Junho, 2009

Para eu me lembrar mais tarde

Será que daqui a alguns anos vamos nos lembrar onde estávamos no momento em que ficamos sabendo da morte do Michael Jackson? Me lembro de ouvir a notícia da morte do Mário Covas do meu pai, que teve que ir para o hospital por causa disso. Mas essa já era uma novidade aguardada. O Covas morreu devagarzinho. Não me lembro de onde eu estava quando o papa morreu. Me lembro bem – muito bem – de onde eu estava quando soube que o Norman Mailer já era: num ônibus indo pra Goiânia, junto com a Gaviões da Fiel. Um jornalista do IG tinha um laptop com conexão. Li na tela do cara.

Para não correr risco de me esquecer: quando o MJ morreu eu estava na redação. Meio sem graça, mas realista.

22 Junho, 2009

Incidente no Shopping

A Eliane Brum escreveu esse texto sobre um episódio que aconteceu com uma atriz moçambicana. A moça sofreu discriminação racial aqui em São Paulo – no Shopping Paulista, que é perto da minha casa. Vou copiar aqui um pedacinho do texto dela:

“Ela (a atriz moçambicana) estava na fila da casa de câmbio, quando a mulher da frente, branca, loira, se virou para ela: “Ai, minha bolsa”, apertando a bolsa contra o corpo. Lucrécia levou um susto. Ela estava longe (…). Imaginou que havia encostado, sem querer, na bolsa da mulher. “Desculpa, eu nem percebi”, disse.

A mulher tornou-se ainda mais agressiva. “Ah, agora diz que tocou sem querer?”, ironizou. “Pois eu vou chamar os seguranças, vou chamar a polícia de imigração.” Lucrécia conta que se sentiu muito humilhada, que parecia que a estavam despindo diante de todos. Mas reagiu. “Pois a senhora saiba que eu não sou imigrante. Nem quero ser. E saiba também que os brasileiros estão chegando aos milhares para trabalhar nas obras de Moçambique e nós os recebemos de braços abertos.”

Bem, não tenho nada a dizer sobre o texto da EB – ela é uma das melhores repórteres em atividade e o texto não contraria isso. O que me deixou um tanto estarrecido foram os comentários que fizeram no blog. Um comentarista escreveu o seguinte:

“Verdade seja dita, ninguém morre de amores por ninguém. Vamos deixar de hipocrisia. Alíás isso é um fenômeno universal. Mas o que nos sustenta é a tolenrãncia e o respeito ao próximo, e pronto. Eu não tenho que morrer de amores nem por branco nem por negro, nem por nenhuma outra raça. Mas tenho que respeitar todos e basta. Por isso eu acho que essa história de racismo é muito mais para vender revista e aflorar os ânimos do que qualquer outra coisa.”

Racista é quem acredita que há raças superiores e raças inferiores. Amor – ou falta de amor – não tem relação nenhuma com isso. Mas se o comentarista acredita que os brancos são superiores aos negros – ou se ele acredita que os negros são superiores aos brancos – ele é racista. Se o comentarista consegue frear os seus impulsos racistas, menos mal. Mas ele continua sendo um racista. E o comentário desse imbecil mostra que “essa história de racismo” existe, sim. O fato de ser universal – o que é contestável, já que nem todo o universo é racista – só aumenta a importância o tema.

Outra coisa: não vou mais nesse shopping. Me recuso.

17 Junho, 2009

Chão de estrelas

Uma garota belga, de 18 anos, reclama da tatuagem que fizeram nela. A menina está com o rosto cheio de estrelas. Ela afirma que dormiu durante a sessão, e que o tatuador aproveitou a oportunidade para fazer 56, e não três estrelas, como ela tinha pedido!

Como alguém pode dormir enquanto é tatuado? A dor é lancinante. Você conseguiria dormir enquanto enfiam uma agulha na sua carne? Não, né.

A matéria da BBC está aqui.

17 Junho, 2009

A cota de sucesso da turma do ProUni

Coluna do Elio Gaspari publicada hoje na Folha:

A DEMOFOBIA pedagógica perdeu mais uma para a teimosa insubordinação dos jovens pobres e negros. Ao longo dos últimos anos o elitismo convencional ensinou que, se um sistema de cotas levasse estudantes negros para as universidades públicas, eles não seriam capazes de acompanhar as aulas e acabariam fugindo das escolas. Lorota. Cinco anos de vigência das cotas na UFRJ e na Federal da Bahia ensinaram que os cotistas conseguem um desempenho médio equivalente ao dos demais estudantes, com menor taxa de evasão. Quando Nosso Guia criou o ProUni, abrindo o sistema de bolsas em faculdades privadas para jovens de baixa renda (põe baixa nisso, 1,5 salário mínimo per capita de renda familiar para a bolsa integral), com cotas para negros, foi acusado de nivelar por baixo o acesso ao ensino superior. De novo, especulou-se que os pobres, por serem pobres, teriam dificuldade para se manter nas escolas.
Os repórteres Denise Menchen e Antonio Gois contaram que, pela segunda vez em dois anos, o desempenho dos bolsistas do ProUni ficou acima da média dos demais estudantes que prestaram o Provão. Em 2004, os beneficiados foram cerca de 130 mil jovens que dificilmente chegariam ao ensino superior (45% dos bolsistas do ProUni são afrodescendentes, ou descendentes de escravos, para quem não gosta da expressão).
O DEM (ex-PFL) e a Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino foram ao Supremo Tribunal Federal, arguindo a inconstitucionalidade dos mecanismos do ProUni. Sustentam que a preferência pelos estudantes pobres e as cotas para negros (igualmente pobres) ofendiam a noção segundo a qual todos são iguais perante a lei. O caso ainda não foi julgado pelo tribunal, mas já foi relatado pelo ministro Carlos Ayres Britto, em voto memorável. Ele lembrou um trecho da Oração aos Moços de Rui Barbosa: “Tratar com desigualdade a iguais, ou a desiguais com igualdade, seria desigualdade flagrante, e não igualdade real”.
A “Oração aos Moços” é de 1921, quando Rui já prevalecera com sua contribuição abolicionista. A discussão em torno do sistema de acesso dos afrodescendentes às universidades teve a virtude de chamar a atenção para o passado e para a esplêndida produção historiográfica sobre a situação do negro brasileiro no final do século 19. Acaba de sair um livro exemplar dessa qualidade, é “O jogo da Dissimulação – Abolição e Cidadania Negra no Brasil”, da professora Wlamyra de Albuquerque, da Federal da Bahia. Ela mostra o que foi o peso da cor. Dezesseis negros africanos que chegaram à Bahia em 1877 para comerciar foram deportados, apesar de serem súditos britânicos. Negros ingleses negros eram, e o Brasil não seria o lugar deles.
A professora Albuquerque transcreve em seu livro uma carta de escravos libertos endereçada a Rui Barbosa em 1889, um ano depois da Abolição. Nela havia um pleito, que demorou para começar a ser atendido, mas que o DEM e os donos de faculdades ainda lutam para derrubar:
“Nossos filhos jazem imersos em profundas trevas. É preciso esclarecê-los e guiá-los por meio da instrução”.
A comissão pedia o cumprimento de uma lei de 1871 que prometia educação para os libertos. Mais de cem anos depois, iniciativas como o ProUni mostraram não só que isso era possível mas que, surgindo a oportunidade, a garotada faria bonito.

16 Junho, 2009

Tenho inveja da Inglaterra

O George Orwell escreve compulsivamente sobre fascimo e nazismo e socialismo e comunismo e regimes totalitários e poesia e prosa. Mas o mais importante, para ele, fica claro, é a Inglaterra. Não tem um único ensaio desse livro chamado Ensaios no qual a Inglaterra não tem papel importante – até no capítulo sobre a Guerra Civil Espanhola o GO gasta parágrafos sobre os intelectuais ingleses e a suposta negligência deles em relação ao desentendimento ibérico.

Para mim, um brasileiro, fica um tanto enfadonho. O que consigo ter é inveja. Na Inglaterra do GO quase todo mundo lia Charles Dickens, quase todo mundo sabe quem é o Kipling.

Mais, não tem muita gente que pensa tão compulsivamente no Brasil como o GO pensa na Inglaterra. Só o fato de um escritor – um bom escritor – se dedicar tanto ao tema do próprio país é invejável.

15 Junho, 2009

O melhor site da internet

É o do Fantástico 30 Anos. Eles colocaram um vídeo da Maria Bethânia cantando Café da Manhã. Tá aqui. Olha o povo-fala no começo. É genial, é espontâneo. E quando os caras cantam? Sensacional. (E sim, a versão da Bethânia é maravilhosa)

15 Junho, 2009

Diálogos são difíceis

Sabe, vou com a cara do Marcelo Rubens Paiva. Acho que ele deve ser um cara inteligente, culto, e com bom gosto. Leio as colunas dele, mas não sempre. O problema é que quando ele tenta fazer ficção não dá muito certo. Os diálogos não soam muito bem, fica uma sensaçãozinha de que ninguém realmente diria aquilo.

O blog do MRP não é muito diferente das colunas. Acho que ele publica colunas antigas no blog.

Não entendo nada de teoria literária, então pode ser que eu escreva algumas bobagens aqui. É tudo chute, ok?

Acho que um dos aspectos que dificultam a criação de diálogos é que é preciso condensar num trecho curto algo que, na vida real, se diria de forma muito mais prolixa. E, claro, o resultado tem que parecer um diálogo possível, que, se não aconteceu, poderia ter acontecido – e quem lê tem que achar isso. Agora veja:

“Você sabe há quantos meses não metemos?”, ele perguntou.
Ela assoprou a fumaça no rosto dele, jogou a bituca pela janela e comentou ligeiramente impaciente:
“Que romântico… Você fez as contas, é?”
“Fiz. Sabe?”
“Quantos?”
“Três.”
“Três meses? E isso é muito ou pouco?”
“Muito.”
“Você quer parar num hotel agora? Tem um monte por aqui nos Jardins.”
“A questão não é essa.”
“E qual é?”
“Por que não ‘transamos’ mais como antigamente?”
“Não sei. Por quê?”
Devolver a pergunta foi a resposta mais eficaz. Isso mesmo, por quê? Afinal, não era só dela a culpa, se é que culpa seja a conduta a ser empregada.
“Por que casais param de trepar?”, ele perguntou.
“Não sei. Por quê?”
“Tesão acaba.”
“Acaba?”
“Acabou?”
“Não. Sei lá. Acho que não. Acabou?”

Não deu, né?

O legal do MRP é quando ele conta alguma coisa que aconteceu com ele, como a descrição do encontro com a Courtney Love.

15 Junho, 2009

Despojos

De acordo com nota da Policia Federal e da Secretaria Estadual de Defesa Social, “o equívoco ocorreu por causa da impossibilidade de se verificar, por semples contato visual, ser o fragmento de tecido orgânico humano ou não”. O pedaço – de cerca de 80 centímetros – não será descartado até que exames laboratoriais confirmem a convicção dos peritos. Diante da impossibilidade da verificação por contato visual, o comando operacional passará a utilizar agora o termo “despojo mortal” e não mais “corpo” para o que for encontrado.

Essa é parte da matéria do Estadão publicada hoje. Sabe que até achei bonita a expressão “despojo mortal”? Não é?

7 Junho, 2009

Don’t fight it, feel it

Tem essa Feel It, também. Li um comentário muito legal no Youtube. Uma pessoa se diz lembrar da época em que The Kick Inside foi lançado. A KB tinha só 19 anos. Saiu na imprensa que antes do disco sair ela cantava as músicas (cujas letras ela mesma escrevia) para os pais. Dá uma olhada

After the party
You took me back to your parlour.
A little nervous laughter
Locking the door.
My stockings fall
Onto the floor.
Desperate for more.

Nobody else can share this.
Here comes one and one makes one,
The glorious union.
Well it could be love,
Or it could be just lust,
But it will be fun.
It will be wonderful.

Oh, feel it. Oh, oh feel it,
Feel it, my love.
Oh, feel it. Oh, oh feel it,
Feel it, my love.
Oh, I need it. Oh, oh, feel it,
Feel it, my love.
Feel it!
See what you’re doing to me?

God, but you’re beautiful, aren’t you?
Feel your warm hand walking around.
I won’t pull away.
My passion always wins.
So keep on a-moving in.
So keep on a-tuning in.
Synchronise rhythm now.

Como uma garota de 19 anos consegue escrever isso? Como pode? Ouvir ela, com aquele bocão, cantando Feel It, devia dar cadeia.

7 Junho, 2009

Esses espíritos pesados me atingem num ponto frágil