3 fevereiro, 2010

Ah, Magnetic Fields

Conheci essa música por causa da trilha sonora de Tarnation, que vi na Mostra de sei lá que ano. Acho que era 2004. Aliás, a trilha sonora desse documentário é primorosa. Tem Low (lindas músicas dessa banda linda), tem Cocteau Twins (um lado B obscuro chamado Ice Pulse), Magnetic Fields y otras cositas más. Tem uma música famosíssima de um tal de Glen Campbell. Wychita Lineman. Mas outros caras também cantaram. O REM. O Sammy Davis Jr. O Johnny Cash – versão minimalista maravilhosa.

O cara que dirigiu Tarnation, aliás, dirigiu um documentário sobre o festival All Tomorrows Parties, que eu e o Bruno vimos na Mostra do ano passado. Meio meia boca, mas com umas coisas legais. Tarnation é um filme tão pessoal, tão íntimo, tão introspectivo. All Tomorrows Parties parecia um longo comercial do festival.

3 fevereiro, 2010

Pissing in a river

Baixei um documentário sobre a Patti Smith. Dream of Life. O diretor colou nela por dez anos. Na verdade verdadeira, ele gravou quando ela voltou a se apresentar ao vivo (meio dos 90) e depois de dez anos. É meio chato – gostei porque sou muito fã. Mas deve ser meio chato para o público em geral ver ela declamando Rimbaud por longos minutos. Mesmo assim é mil vezes melhor do que os documentários brasileiros sobre cantores que andam saindo por aí.

Quando escrevi que o diretou “colou” na PS, é isso mesmo. Ele gravava até bobagens. Daí conseguiu pegar um diálogo dela com a família em que ela conta que imitava até o jeito que o Bob Dylan chamava um taxi (ele esticava o braço todo e só balançava o pulso). A gente também vê o Michael Stipe babando ovo para ela. Na saída de um show, dá para ver alguns fãs – além do vocalista do REM, o Thom Yorke e o Bono Vox vão dizer para a Patti Smith que ela é great. Ela é.

Num outro momento, ela troca histórias sobre mijar em situações improváveis com o Flea. Ela toca violão e conta que não sabe tocar direito até hoje. E conta uma história sensacional. Na década de 70, ela ganhou um violão lindo, da década de 30, do Sam Shepard. Mas ela não sabia tocar violão direito. Ela não conseguia afinar. Então ela mostrava o instrumento para gente que realmente tocava. E oferecia: “quer tocar um pouco?”. O cara afinava e tocava. “Once, Bob Dylan himself tuned this guitar”, ela emenda.

Ótima cantora, ótimos momentos gravados.

2 fevereiro, 2010

Shortcuts

Locação 01 – Rua. Gutierrez caminha com uma sacola plástica de supermercado na mão. Dá para ver que tem dois tênis dentro da sacola.

Locação 02 – Gutierrez entra numa sapataria. É uma loja pequena, quase que só um balcão. Gutierrez coloca a sacola plástica no balcão. Atrás do balcão, um jovem, gordo, de barbicha, sentado, preenche os números de um jogo de mega sena. Gutierrez aguarda. O rapaz finge que não o viu.

Gutierrez – Opa. Será que você tem um tempinho?
Gordo – Sapato não é comigo, é com o outro rapaz que saiu.
Gutierrez – E você não pode nem olhar o que é?
Gordo – Não, sapato é com o outro rapaz e ele foi tomar um café.
Gutierrez – Sei. E quanto tempo vai demorar?
Gordo – Não sei, eu não respondo por ele, acredita?
Gutierrez – Você quer que eu espere aqui?
Gordo – É, uns dez minutos.
Gutierrez – Dez minutos? E não tem outro jeito?
Gordo – Você pode voltar mais tarde.
Gutierrez – Ou eu posso procurar outro lugar.
Gordo – É, ou isso, de preferência.

Gutierrez sai da loja. Gordo preenche os dígitos da mega sena.

29 janeiro, 2010

91 tá mais do que bom

Um palpite: ele se escondia porque não precisava aparecer. Continuou vendendo muitos livros. Pelo menos o suficiente para não precisar pensar em grana.

Não li tudo do JD Salinger – e tudo é pouco, como se sabe. Deixei de lado o principal. Há uns quatro anos catei o Franny & Zooey numa liquidação. Emendei no Nine Stories. Gostei muito dos dois. Depois peguei o Catcher in the Rye na prateleira e não consegui seguir adiante. Porque esse, como Admirável Mundo Novo, ou como qualquer coisa do Rubem Fonseca e a maior parte do Gabriel Garcia Marques, é pra moleque. Se o leitor não é tão moleque, não consegue aproveitar. Mais ou menos como carnaval em Ubatuba.

Mas os contos são realmente muito bons. Pra mim, a grande qualidade do cara era que ele conseguia condensar num momento só uma história anterior. Mais ou menos como se numa conversa entre um filho e a mãe o leitor entendesse a vida toda dos dois e mais dos irmãos. E também desse para adivinhar o que aconteceria depois.

26 janeiro, 2010

Fita Branca amor, não podes mais demorar

Quando A Fita Branca entra em cartaz? Essa demora é muito longa. Aposto que dava para colocar o filme nos cinemas amanhã, mas por alguma razão mercadológica bem estúpida estão protelando.

Talvez não haja internegativo para alugar no momento. No UOL o Maurício Stycer explica que “as cópias de filmes estrangeiros lançados no Brasil são feitas no país a partir de uma matriz, o chamado internegativo, emprestada pela empresa que detém os direitos do filme no exterior. No caso de “Guerra ao Terror”, explica Scherer, o internegativo não estava disponível na ocasião em que ele queria lançá-lo, o que obrigaria a Imagem Filmes a pagar pela compra de um – um valor da ordem de US$ 35 mil, mais outro tanto em impostos”. (A matéria é sobre essa Guerra ao Terror que pode ganhar o Oscar, como está bem claro.)

Mesmo se não houvesse o tal do internegativo, é um filme que precisa passar logo. Ganhou Cannes, pô. É do Haneke, cacete. Vão logo, distribuidores, larguem a mão de serem letárgicos.

24 janeiro, 2010

Cantinho do Céu na Harvard

Do Gaspari

HARVARD NA FAVELA
Treze estudantes de arquitetura e urbanismo da Universidade Harvard produziram uma joia para o estudo das favelas nas grandes cidades brasileiras. Eles baixaram na comunidade de Cantinho do Céu (30 mil habitantes), localizada à beira da represa Billings, fornecedora de água para São Paulo.
Ajudados pela Secretaria Municipal de Habitação, trabalharam 14 semanas no estudo da Cantinho, visitando-a por quatro dias. Livre de demofobia, a equipe projetou dez iniciativas que resultaram no livro “Operações Táticas na Cidade Informal”. Cantinho do Céu se espalha por seis quilômetros de orla e é cortada por linhas de transmissão de que ocupam uma área desabitada de 40 hectares.
As propostas dos jovens parecem sonhadoras mas, quando dão certo, mudam a cultura de uma cidade. Propõem a criação de áreas sociais, como um calçadão na orla, e o enterramento das linhas de alta tensão, com a abertura de um novo espaço urbano. Percebe-se a inteligência da garotada quando se vê que eles não escreveram a palavra “polícia”.

Conheço o Cantinho do Céu. Uns colegas meus da GV tinham uma ONG lá. Um dia eu, bastante empolgado, fui lá conversar com uns garotos (média de idade de 16 anos) que tocavam um jornal comunitário. Molecada esperta e interessada, é bom dizer. Não sei que fim levou. É um cantinho realmente bonito – tem a água da represa e alguns morros. Água e morro ficam bonitos quando estão próximos (o Rio de Janeiro comprova).

Minha passagem por lá se deu numa época em que eu estava no último ano da faculdade de jornalismo e fiz uma video reportagem sobre clientelismo político na cidade de São Paulo. Ouvi histórias escabrosas, que pareciam narrações sobre o sertão do Teodorico (que o Eduardo Coutinho mostrou num Globo Repórter e, se não me engano, num documentário também). Um palpite: essas propostas sonhadoras que podem mudar a cultura de uma cidade nunca vão ser mais do que propostas enquanto aquela área continuar sendo a gleba de terra dos irmãos políticos que a dominam.

22 janeiro, 2010

Ruy Castro ataca a moda (e manda bem)

Hoje li, exultantemente, um artigo do Ruy Castro. Vou copiar um trecho:

Há muito me convenci de que o sonho dos criadores de moda era ter como modelo o zumbi Cesare, interpretado por Conrad Veidt, no filme de Robert Wiene, “O Gabinete do Dr. Caligari”, de 1920. Ele era magérrimo, tinha cabelos pretos escorridos e úmidos, grandes olheiras, beiços de batom escuro e usava uma malha preta inteiriça que lhe realçava os braços e pernas de graveto. A diferença para com as modelos de hoje é que Cesare se vestia melhor.

E essa é a contradição. Talvez eu não frequente os ambientes certos, mas não vejo as “criações” exibidas na passarela se transferirem para as ruas. Nem poderiam. Como imaginar que roupas criadas para menores de 50 kg se adaptem às mulheres da vida real, cujo dia a dia se compõe de cachorro quente, batata frita e torta de brigadeiro?

Eu também não frequento os ambientes certos, como o Ruy Castro (que eu adoro). Não consigo enxergar nenhuma genialidade nas tais criações. E detesto, detesto ver gente se referindo a estilistas como gênios ou grandes artistas. Há uns anos, um moleque de 15 anos, filho de um casal de estilistas (sim, o homem era o pai do moleque e era estilista…estranho, diz aí) também desenhava suas coleções. Ele era resenhado e respeitado. Ou seja, até um moleque de 15 anos consegue fazer aquele negócio, então não deve ser tão difícil. Difícil mesmo, como em qualquer profissão, deve ser conseguir entrar na roda – participar da semana da moda, ser entrevistado pelas jornalistas famosas, etc… O moleque tinha os pais influentes para ajudar nessa tarefa.

22 janeiro, 2010

A lista de leitura obrigatória está errada

Auto da barca do inferno – Gil Vicente;
Memórias de um sargento de Milícias – Manuel Antônio de Almeida;
Iracema – José de Alencar;
Dom Casmurro – Machado de Assis;
O Cortiço – Aluísio Azevedo;
A cidade e as serras – Eça de Queirós;
Vidas secas – Graciliano Ramos;
Capitães da areia – Jorge Amado;
Antologia poética (com base na 2ª ed. aumentada) – Vinícius de Moraes

Não gosto de concordar com a Clarah Averbuck. Mas aí vai: já li uma entrevista dela em que ela dizia que achava um crime ser obrigado a ler A Moreninha no colégio. É verdade. É um crime. Leitura obrigatória no colégio deveria ser atraente. Alguma coisa do século XX americano (JD Salinger ou Norman Mailer ou até Bukowski), alguma coisa do século XIX russo (Dostoiévski, provavelmente), brasileiros contemporâneos (Cristóvão Tezza – li Trapo com 15 anos e digo que Trapo era a minha cara quando tinha 15 anos, Rubem Fonseca – a mesma coisa, só que com Lúcia McCartney e A Coleira do Cão), e, claro, brasileiros dos séculos XIX e XX que são interessantes.

Não há justificativa para colocar o Jorge Amado na lista unificada da Fuvest e Unicamp de leituras obrigatórias. Capitães de Areia é literatura para quem tem 12, 13 anos, no máximo. Não 17. E o Auto da Barca do Inferno? Li para o vestibular, mas é arcaico, não instiga nem um pouco. A Cidade e as Serras? O Cortiço? IRACEMA? Tiraram Guimarães Rosa para colocar Vinicius de Moraes? O que é isso? E Macunaíma?

A lista correta deveria ser:

O Caderno Rosa de Lori Lamby – Hilda Hilst
Memórias de um sargento de Milícias – Manuel Antônio de Almeida;
A Coleita do Cão – Rubem Fonseca;
Dom Casmurro – Machado de Assis;
Triste Fim de Policarpo Quaresma – Lima Barreto;
Macunaíma – Mario de Andrade;
Vidas secas – Graciliano Ramos;
Sagarana – Guimarães Rosa;
Sons: Arranjo: Garganta – Ricardo Domeneck (é minha lista imaginária, eu coloco meus amigos, ok?)

16 janeiro, 2010

O diabo e o Daniel Johnston

Acabei de ver. Muito, muito bom. Deu inveja. Queria eu fazer um documentário como esse. Ou que alguém aqui no Brasil tivesse feito um documentário como esse. Sem um “explicador” como o Nelson Motta (nada contra ele, OK?). Um documentário com cenas de verdade, e não só depoimentos seguidos de arquivo. Ou, pior ainda, depoimentos seguidos de animação gráfica, à la Ninguém Sabe o Duro que eu Dei.

Mas principalmente, queria que tivesse alguém como o Daniel Johnston aqui no Brasil. E, se surgisse alguém genial dessa maneira peculiar e única, essa pessoa conseguisse viver e desenhar e compor e cantar e tocar do jeito que o Daniel Johnston consegue. O amor verdadeiro encontraria essa pessoa no fim!

16 janeiro, 2010

O futuro é 00 e 01

Hoje fiz algo inédito na minha vida. Li alguma coisa do Paulo Coelho. A entrevista que ele concedeu ao Estadão. Ele fala basicamente sobre mercado editorial e a possibilidade, cada vez menos remota de que grande parte do mercado de livros migre para o formato digital. O cara é muito simpático e esclarecido na entrevista. E sempre me surpreendo com o sucesso comercial dele – na entrevista, diz que vendeu 135 milhões de cópias. Não consigo nem imaginar o que seja isso, é muita gente lendo. Será que 135 milhões de pessoas leram Guerra e Paz, por exemplo? Acho pouco provável.

Vou copiar aqui alguns trechos da entrevista – que está, na íntegra, aqui.

Você chegou a perguntar a Fernando Morais sobre quanto tempo demoraria para seus livros serem esquecidos. Acredita em uma vida longa (ou mesmo eterna) a partir do mundo digital?

A carta no final da biografia é mais retórica do que qualquer outra coisa. Mas acredito que o mundo digital oferece essa possibilidade. E tenho exemplos concretos a respeito: filmes. Vários filmes que eu gostaria de ter visto e desapareceram do mapa e das locadoras, podem ser encontrados em sites P2P. Então o cinema renasce, apesar de as pessoas chamarem isso de “pirataria”.

Bem, tenho um caso concreto para contar que se relaciona, de alguma maneira ao que o Paulo Coelho disse. Como disse aqui antes, comprei O Caso do Camarada Tulayev, do Victor Serge no Estante Virtual. Paguei muito (se bem que agora, no mesmo site, só tem um único volume e está ainda mais caro – R$ 100). É de uma edição de 53. Velha, caindo aos pedaços, incômoda de ser lida, num Português que já está duas reformas ortográficas ultrapassado. Se houvesse uma edição nova, com páginas ainda brancas, estaria com ela na mochila. Eu não gosto de ler livro (objeto) velho. Isso não acontece porque nenhuma editora se interessa por lançar O Caso do Camarada Tulayev. Algo mais provável: daqui a alguns anos eu vou um Kindle (ou um genérico) e pode ser que eu encontre O Caso do Camarada Tulayev em versão eletrônica.

Voltando ao Paulo Coelho:

E você teme a pirataria de e-books?

Eu não temo pirataria em nenhuma área. Veja a resposta que dei sobre o cinema – se não fossem os sites de compartilhar arquivos, não poderia ver muitos dos filmes que estavam na minha lista, mas tinham desaparecido do mercado. Por sinal, tenho meu site Pirate Coelho e, entre a primeira resposta e essa, vi que foram baixados 155 arquivos em diversos países do mundo.

Durante uma entrevista baixaram 155 arquivos. Sensacional, não? Eu acho, sinceramente.