5 Novembro, 2009

Um documentário cocadaboa

A Época entrevistou um documentárista que plantava notícias falsas que os tablóides britânicos publicavam. Muito legal. O Cocadaboa fez várias dessas, que pegavam até a mídia “séria” brasileira. Era bem legal. O Sexkut foi uma Orkut de um Orkut só com gente que já tinha transado entre eles. Muito bom. Outra muito boa: o Xaxim diz “sim”, um traficante carioca que lutava pelo desarmamento no plebiscito de 2006. Tem outras “barrigadas” que eles fizeram a mídia engolir, mas não me lembro delas.

Dá uma olhada na entrevista do cara aqui.

30 Outubro, 2009

Mulheres agressoras

Sabe esse escândalo da garota da Uniban, que foi agredida verbalmente por uma turba de gente grotesca? O que mais chama a atenção é que as pessoas mais violentas são as meninas. Dá para ver elas no vídeo berrando “puu-ta!”. Por que será?

20 Outubro, 2009

São Paulo Alexanderplatz

Agora começa a Mostra. Entre os filmes que vão ser exibidos está Berlin Alexanderplatz, do Fassbinder. São mais de 15 horas, já que originalmente foi uma minissérie.

Segundo a Susan Sontag, esse é um dos filmes adaptados mais fiéis a um livro. Justamente por ter essas horas todas.

Estou pensando há muito tempo em ver. E agora minha vontade aumentou. Isso porque acabei de ler o livro do Döblin. E é empolgante.

Berlin Alexanderplatz é, na definição do seu autor, um épico. Por que ele classificou o trabalho assim? Épico, na minha cabeça, é uma história heróica de um povo.

Homem forte, grande, bruto, cafetão, ladrãozinho, bêbado, gauche, tosco, bobo, Franz Biberkopf quer ser simples, honesto, quer tratar bem as mulheres, fica contratiado quando descobre que sua namorada faz programas – mas depois aceita e vira “protetor” dela, fica chateado quando descobre que seus amigos são uma gangue – mas depois se junta a eles. Despreza os socialistas, mas frequenta as reuniões com um amigo, igualmente ladrãozinho. Um outro amigo o joga para fora do carro, ele perde um braço. Mas segue em frente.

Franz Biberkopf é um herói do lumpen proletariado, uma nação de pobres desorganizados. E ele sofre estoicamente, mas tenta se recuperar seguidamente. Ouve a canção da morte, mas não sucumbe. E é por isso que o livro é um épico.

A Alemanha pré nazismo é o cenário. Mas, como todas as boas obras, aquela Berlim frenética não é só aquela cidade naquele momento, mas todas as grandes metrópoles. Alexanderplatz era a praça onde os semi-mendigos se reuniam. Acho que era uma espécie de Praça da Sé. Mesmo conhecendo Alexanderplatz (a de hoje, claro) eu pensava na Praça da Sé enquanto lia.

Claro que todos que leem a tradução perdem muito. O Döblin reproduziu a maneira de falar dessa “gentalha” de Berlim da época. (Como o Herman Melville pegou os trejeitos dos marinheiros do século XIX.) E esse sotaque não é só um sotaque, porque descreve bem como eram aquelas pessoas.

Bem, este post está muito longo. E esses são os que fazem menos sucesso. Vou tentar resumir. Pra mim, o grande mérito do livro não é a linguagem e o fluxo de consciência (nem sei se isso é realmente fluxo de consciência, mas que é bem parecido, é) ou a captura da atmosfera. O grande lance é que ele conseguiu contar boas histórias dessa gente desprezada, feia e suja.

PS: eu sou muito burro. Berlin Alexanderplatz passou na Mostra passada. É que o site ainda tem os filmes lá, e eu me confundi. Mas isso não é problema, os DVDs estão nas locadoras, dá para pegar.

15 Outubro, 2009

Poesia e jazz versus romance e roque

Acabei de escrever que não sei nada de poesia, e é verdade. Mas sei que a poesia não tem, nem de longe, a popularidade que já teve. A poesia é o jazz da literatura. É preciso saber o que é enjabement para poder entender um poema e é preciso saber que a batida do Dave Brubeck tem um compasso diferente. Por isso que essas coisas são chatas. (Vou colocar um “para mim” – que acho ser prescindível, já que o que está neste espaço ou o que sai da minha boca só pode ser “para mim” – porque às vezes uma opinião só é aceita se vier com essa espécie de pedido de desculpas anexado)

Agora, para gostar de Animal Collective, por exemplo, não se precisa saber nada, é só ouvir – e dane-se se a batida é de cinco por cinco, que é diferente da tradicional, nhém nhém nhém. Essa teorização é afetação técnica. Para entender um romance também não se precisa se debruçar sobre cada palavra. Basicamente, se acompanha a estória. Claro que estou simplificando, mas a ideia geral da impopularidade dessas duas chatices é essa.

15 Outubro, 2009

Sobre o João Cabral de Melo Neto

Ontem vi, na Globonews, um especial sobre o João Cabral de Melo Neto. Muito bem editado. Era só material de arquivo, mas um material bom pra cacete.

Não gosto de poesia. Tenho dificuldade para ler poesia. Acho que é difícil, trabalhoso, exige muita atenção e também erudição – uma erudição que não possuo. Um exemplo: ontem fiquei sabendo que o João Cabral começou fazendo versos surrealistas e que depois adotou uma métrica mais popular. Esse é só um exemplo. Tem outros.

Me irrito com gente que diz que gosta de poesia como se fosse algo simples, para ser lido enquanto se toma vinho, uma leitura para ser desfrutada. Não é. Poesia é um treco difícil pra cacete. Fiquei contente ao ouvir o João Cabral de etc dizer algo parecido. Ele ficava aborrecido quando falavam da poesia como se fosse uma canção sem musicalidade. Não é.

13 Outubro, 2009

Eleições são divertidas – 01

Sou maluco por eleições. Acho um barato. Nas noites dos dias de votação fico acompanhando os jornais e as mesas redondas e vendo como está a disputa no Piauí, Goiás, Pará, todo canto.

Ano que vem vai ser legal. As eleições mais imprevisíveis desde 89. É a primeira vez que o Lula não está no páreo. Quer dizer – não diretamente. O Lula vai ser o principal tema das eleições. Mesmo se, como o Serra está fazendo, não se citar o nome dele.

Quero dar palpite. Pode parecer que a internet vai ter aqui a mesma função que teve nas eleições do ano passado nos EUA. Duvido. O Brasil tem altas taxas de analfabetismo e altíssimas taxas de analfabetismo funcional. E internet, aqui, é coisa de moleque. E moleque não vota.

Bem, há uns anos, tentei fazer uma série neste espaço. Se chamava “Eleições são divertidas”. Mas perto das eleições eu fui viajar, de férias, e não acompanhei o final. Neste ano isso provavelmente não vai acontecer de novo. Então, esperem a reedição.

5 Outubro, 2009

Jon Lee Anderson sobre o Terceiro Comando Puro

Clique aqui para ser direcionado a um arquivo em PDF do artigo do Jon Lee Anderson, publicado recentemente na New Yorker, sobre as gangues no Rio de Janeiro.

Ele fez o que poucos jornalistas brasileiros fazem: entrevistou um chefão. A matéria dá um panorama das brigas entre o Comando Vermelho e o Terceiro Comando, relata casos de violência extrema, explica o porquê da polícia ser tão ineficiente, descreve a vida do Fernandinho do Dendê e de outras pessoas que cercam esse chefe de tráfico.

É longo (é da seção Reporter at Large, a que costuma ocupar os maiores espaços da New Yorker), mas passa rápido.

O Jon Lee Anderson, para quem não se lembra, é aquele cara que foi “banido” das páginas da Veja. O causo foi o seguinte: ele foi entrevistado pela revista brasileira na ocasião do aniversário da morte do Che Guevara. A matéria publicada era super parcial, um op-ed tosco. O que o Jon Lee Anderson não sabia era que a Veja é radical em suas posições. O público brasileiro a conhece. Quem quiser ler lê. Quem não quiser não ler não lê. Simples assim.

O jornalista americano publicou uma carta aberta criticando a matéria da Veja. O autor dessa matéria ficou contrariado e respondeu com uma carta aberta. Em Inglês. Eu li essa carta. Fiquei intrigado em ver como o cara precisava estudar Inglês. Ele não conseguia escrever frases simples. Nessa carta ele “bania” o Jon Lee Anderson das páginas da revista. Ele escreveu com a certeza equivocada de que o Jon Lee Anderson tivesse vontade de ver seu nome publicado lá. O americano escreveu mais uma carta aberta. Dessa vez, caçoava da falta de habilidade do brasileiro com o Inglês e se desculpava por ter escrito a primeira carta aberta – ele deveria ter feito um documento privado.

Esse vai e vem de cartas públicas gerou muita discussão nos blogs jornalísticos e políticos. Muita bobagem. Botaram a vida do Che Guevara no meio, como se o biógrafo fosse um fã do biografado. Mais malícia para argumentar do que ingenuidade.

Em tempo: alguns brasileiros criticaram o Jon Lee Anderson por ter publicado essa matéria pouco antes da decisão do Comitê Olímpico. E alguns americanos que leram a matéria ficaram abismados com a decisão que favoreceu o Rio.

5 Outubro, 2009

Do you dig?

Recentemente vi Loki, aquele documentário sobre o Arnaldo Batista, e Metal – a Headbangers Journey. Os dois são ruins.

O primeiro é muito quadrado, tradicional, sem sal, depoimento-arquivo-depoimento-arquivo. A história do Arnaldo é, essencialmente, triste. E o documentário não conseguiu captar a tristeza da vida do cara. E ainda tentaram fazer um happy ending com a volta dos Mutantes, que talvez seja o evento mais triste desde que existe Mutantes. Fazer uma parceria com a Zelia Duncan é mais fossa do que se atirar do quarto andar.

E Metal – a Headbangers Journey parte de uma premissa bem legal, que é rever a história do estilo. Mas o filme tem alguns problemas. Ele tenta abordar TODA a história de TODOS os subgêneros do Heavy Metal e também passar por TODOS as polêmicas que marcaram o estilo. É muita coisa, não dá pé. Não deu pé. E ele ainda leva o Heavy Metal muito seriamente. Parece aquela esquete do TV Pirata que eles analisam uma piada.

É super difícil aparecer um bom documentário sobre música. Mas não impossível. Um dos melhores está disponível de graça, mas só nessa semana. É Dig! Veja aqui, na pitchfork.tv.

A documentárista, amiga dos membros das duas bandas (Brian Jonestown Massacre e Dandy Warhols), gravou a trajetória dos grupos por anos a fio. É interessantíssimo como filme – inovador, cheio de ação, bem editado, surpreendente. E também revela muito de como funciona (ou funcionava) a indústria de discos dos anos 90 – as feiras, o clipe, o investimento inicial nos Dandy Warhols que não deu certo, a desistência de contratar o BJM por causa da briga no palco, são inúmeros os casos.

Não percam. Mesmo.

2 Outubro, 2009

Brasil il il

Êpa, pera aí, gente. O Rio foi escolhido como sede da Copa, mas isso não quer dizer que “o mundo reconheceu os avanços recentes do país, entregou-lhe um troféu pelo que já mostrou ser capaz de fazer (…)e resta ao país (…) provar que os avanços obtidos até agora não foram mero acidente”.

Os índices de desigualdade não diminuíram tanto assim, o analfabetismo continua altíssimo, o Brasil ainda é um país calhorda, a polícia ainda é um horror. Talvez as Olimpíadas ajudem o Brasil a superar isso tudo. Tomara. Mas o fato de terem escolhido o Rio para a sede não significa que a cidade seja uma Viena tropical.

2 Outubro, 2009

Brasil il il

Interpol, Spoon, Kanye West, LCD Soundsystem, Animal Collective, White Stripes, Sigur Ros, Strokes, Wilco, Daft Punk, Arcade Fire e Radiohead. O que essas bandas todas têm em comum? Elas têm discos que estão no top 20 que a Pitchforkmedia selecionou para os anos 00 – e todas essas vieram tocar aqui no Brasil. Ainda daria para colocar o Panda Bear, que tocou uma música dele no show do Animal Collective.

E daí? Daí que isso mostra que, de alguma maneira, o país faz parte de um circuito de shows relevantes. Já passou, felizmente, a época em que só vinham para cá bandas decadentes de heavy metal. (Talvez aí haja uma redundância, porque heavy metal e decadência se sobrepõem quase sempre.)